De fato, esse garoto do terceirão-94 estava com toda a razão. Tinha mais era que aprontar a mochila, trocar o material escolar e deixar de lado por um ou dois dias até mesmo a preparação para o vestibular que estava logo ali, afinal era novembro, e ir ao encontro do eclipse. Não era qualquer eclipse…

 Catei uma notícia da Superinteressante de janeiro daquele ano (1994) e veja o que ela anunciava:

“ (…) Para os brasileiros, será a mais impressionante ocultação total neste final de século. Se você não pretende perder essa oportunidade única – ver o eclipse total do Sol no dia 3 de novembro deste ano, 1994 -. comece a se preparar desde já. Marque suas férias e escolha o local. Uma boa escolha envolve fatores econômicos, meteorológicos e Astronômicos. Os fatores Astronômicos são simples de definir. A faixa da totalidade, na qual o Sol fica coberto por inteiro, é a única onde se pode aproveitar a beleza do eclipse em sua plenitude. Quanto mais perto do centro da faixa de totalidade (confira no mapa), maior a duração do evento. O centro estará sob uma linha que passa por Criciúma, em Santa Catarina, San António, na Bolívia, Putre, no Chile, e Mollendo, no Peru. (…)”

 

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A totalidade do eclipse e o espetáculo da Coroa Solar. Foz do Iguaçu, 03/11/1994

 

E não era mesmo qualquer eclipse. Tratava-se, pois, de um eclipse total do Sol!  E mais: a sombra da Lua (projetada sobre parte da esfera terrestre) cairia bem sobre o sul do Brasil, desde Criciúma (SC) a Foz do Iguaçu (PR). Mais ainda: a previsão da meteorologia era muito favorável para o período do eclipse (o final da manhã do dia 03 de novembro de 1994), tanto em Santa Catarina, como no Paraná. Bem, convenhamos que previsão meteorológica é algo assim nem tão confiável, sobretudo há vinte anos…

Desta vez, porém, ela acertou!

Mas, calma… voltemos ao nosso caro Michael. Piazão pra lá de um metro e noventa, quieto, sempre tranquilo no fundão da sala (sim, era e é  possível essa combinação: tranquilidade e fundão de sala de aula). Uns dias antes, terminou a aula de geografia e Michael se ergueu, foi até a minha mesa e, enquanto eu arrumava as minhas tralhas (traduza-se: mapas, velhos diapositivos, meia-dúzia de cacos de giz, o livro do Cosmos de Carl Sagan…), ele disparou: “Professor, preciso que você me quebre um galho…” De certa forma me surpreendi. Ele era bem autônomo, brilhante em seu desempenho escolar… afinal, que ajuda ele estaria precisando de mim?

“É que dia dois à tarde vou para Criciúma. Tenho uns parentes por lá e , bem, não perco esse eclipse por nada.” Meio sem jeito, o ítalo-alemão (ou seria o teuto-italiano) emendou: “Limpa minha barra com o professor de … (outra matéria, digamos que fosse, de Aramaico). Tenho prova nesse dia e ele não está querendo me deixar fazer a segunda chamada. De repente você, como colega dele…”

E assim foi feito o pedido. Não sei se cheguei a tranquilizá-lo. É provável. Mas, o certo é que às sete e meia, manhã do dia 3, quando entrei no Terceiro “A”, lá estava… a carteira escolar dele vazia.

Por certo falei com o colega professor. Resmungou, é verdade (“esses teus discípulos estão sempre saindo da sala, ora vão para a caverna, ora vão para a serra, agora esse aí viaja para ver o eclipse…”)

Bom, nós que ficamos por aqui, em Curitiba, depois de uma certa negociação com os chefes na Sala dos Professores, durante o recreio, paralisamos as aulas (as aulas em sala, fique bem claro) e fomos ao pátio. Um  telescópio armado no campão e outro numa quadra de futsal, projetando a imagem em telões de lona. Olhar direto para o Sol, jamais!

Mais de mil alunos espalhados pelo pátio, negativo de filme fotográfico (celuloide) ou lâmina de raio-x na mão, erguido para o céu. Parecia um ritual de solstício em Stonehenge. Nas telas, a silhueta do Sol pouco a pouco se reduzia em uma mordida vagarosa, mas insaciável. Era mais de onze da manhã, céu absolutamente azul – e não era só em Curitiba, mas praticamente em todo o sul do país, cá entre nós, coisa rara! – e o eclipse estava no auge. Noventa e três por cento da esfera solar coberta pela lua nova que, orgulhosa, por um acaso da física, por ali passava.

Mais de noventa por cento da fotosfera solar encoberta. Fiapo de Sol. Ainda assim, suficientemente brilhante para não deixar escurecer a ponto de vislumbrarmos alguma estrela brilhante. Apenas uma leve queda na luz. Como se tivessem descido uma persiana, o azul do céu mudou para um tom um tanto mais escuro, apenas e pronto: daqui há pouco estava tudo voltando como antes (em Foz, onde o eclipse foi total, a passarinhada do Parque das Aves foi trapaceada pelos céus e se recolheu por breves minutos em seus ninhos e ramos. Era um crepúsculo em pleno meio-dia!).

P.S.:  Michael realmente merecia ir a um local em que se podia assistir ao vivo o eclipse total do Sol, com direito às estrelas em pleno dia e à coroa solar. Quando estava na sexta série – hoje a gente chama de sétimo ano e outro dia já chamaram de segundo ano ginasial – Michael, aos 12 anos, dividia comigo as aulas de Astronomia. Dividia não para assistir à aula, mas para lecioná-las aos alunos e pais das turmas da série anterior (só um pouquinho mais novata). O rapaz era novo assim e sabia muito de Astronomia! Um mês e pouco depois do eclipse e de sua viagem à Criciúma, saiu o resultado do vestibular da Federal: Michael aprovado em 1º. lugar no curso de Geologia. Hoje, o geólogo Michael Strugale trabalha na Petrobrás. Grande figura, baita aluno!

 

Francisco Rehme, o Chico.