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A Virada Cultural de Curitiba mudou de nome oficial, virou Corrente Cultural e se estendeu por um período mais longo, mas foi no fim de semana (09 e 10 de novembro) que a programação intensa de shows tomou conta do centro da cidade.

Já escrevi, há dois anos, neste mesmo blog, sobre as minhas boas impressões a respeito deste evento, que em minha opinião democratiza a cidade.

Porém, ao participar dos vários shows,  este ano,  uma ideia começou a pulsar em minha cabeça e tento aqui desenvolvê-la.

A olho nu arrisco afirmar que esta “Virada” foi a maior em público até agora e tudo contribuiu para isso: o sol, a programação diversificada e, óbvio, a popularização da ideia, que vai se firmando como singular no cenário curitibano.

Comecei a notar, no entanto, que para muitas pessoas, uma coletividade, trata-se de uma oportunidade que vai muito além de ouvir música, é um momento de extrapolar, de ocupar a cidade de um outro jeito, de infringir regras e leis, de fazer o que não é permitido fazer em outros momentos. Observando isso me lembrei de um livro do Bakhtin chamado A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, no qual ele trabalha, entre outras coisas, com o conceito de carnavalização. Correndo sério risco de, ao retirar o conceito do contexto proposto pelo autor, assassiná-lo, vou arriscar dizer que, em minha opinião, há um processo de carnavalização na “Virada” Cultural.

Explico, para o autor, carnaval não era uma festa em si, mas um fenômeno: “era o triunfo de uma espécie de liberação temporária da verdade dominante e do regime vigente, de abolição provisória de todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus” (Bakhtin, 1999, p. 8). Foi isso que enxerguei neste fim de semana pelas ruas de Curitiba, uma liberdade temporária, que “autoriza” as pessoas a fazerem aquilo que normalmente não fazem à luz do dia e em público. Não vou aqui julgar isso como bom ou ruim, até porque detesto maniqueísmos. Penso apenas que esta carnavalização revela uma cidade que a gente mantém embaixo do tapete no resto do ano.

Nesta Virada, em especial, o show do Criolo trouxe a estética da periferia e a Boca Maldita foi invadida por uma população que normalmente é esquecida, escondida, disfarçada, que está à margem, marginalizada. A Rua XV não tinha nada de europeia no domingo de manhã. Aquele show me pareceu, antes de mais nada, um ato político. E ali, assim como nos outros shows, havia sujeitos de todos os tipos, que na “vida real” vivem separados pelas muralhas intransponíveis da condição social.

Parece que a cidade não sustentaria, por um período mais longo, esta efervescência e quando a coisa dá mostras de que vai fugir do controle o domingo finda, os palcos começam a ser desmontados, a sujeira vai sendo limpa, cada qual volta pro seu lugar, pro seu gueto, levantam-se as barreiras. A cidade segue ilesa? Não sei. É apenas pão e circo? Não sei.

Juliana Heleno