O menino fazia prodígios

Até  fez uma pedra dar flor!

A mãe reparava o menino com ternura.

(in Exercícios de ser criança – Manoel de Barros)

 030---leitura

Tem coisas na memória da gente que ficam obscuras e, de repente, como se algum botão tivesse sido acionado, reaparecem, não sei se isso acontece com todo mundo, mas comigo acontece.

Ocorre que um dia desses recuperei uma informação da minha infância que há muito não lembrava: eu era uma criança muito mentirosa. Explico: era uma inventadora de histórias, mas como não enxergava a linha que separa imaginação de realidade, misturava as duas coisas. Tinha dúzias de amigos imaginários e escolhia casas da redondeza nas quais eles moravam, nas imediações da Silva Jardim, onde eu também morava. Eram todos meus vizinhos. Tínhamos muitas conversas, aventuras e até brigas. Comprava, quando Mãe me dava dinheiro, uma caixa de quindins, na Só Quindins, com doze sempre, para poder “distribuir” a eles. Sendo eles imaginários, no fim, comia tudo.

Tinha sempre muitas histórias nossas a contar e Mãe ouvia todas, enquanto costurava, cozinhava ou tentava ver televisão. Nunca disse nem que sim e nem que não. Não fui a psicólogo, não havia na época nenhuma síndrome catalogada do tipo “mentirite crônica”. Mãe, que já havia criado sete, achava normal, eu penso. Lendo Synthomas de Poesia na Infância, de Glória Kirinus, pude diagnosticar, finalmente, os meus “problemas”: delírio verbal, devaneio crônico, isolamento fabuloso, catapora inventiva. Sinto de nunca ter tido rimite aguda.

Fui para escola aos seis anos e Mãe me deu muitas instruções, me preparou para ser aluna, uma delas foi “Filha, não fica contando dos seus amigos na escola, quando você chegar em casa, conta”. Mãe, que quase não foi para a escola, sabia que a escola não lidava bem com invencionices e com crianças diferentes. Tinha que prestar atenção, ficar quietinha, obedecer e fazer tudo o que a professora mandava.  Combinados feitos, fui uma aluna muito ajustada, pintava os caules das flores de marrom, as folhas de verde e as flores de vermelho, como a professora queria. Boa menina.

Continuei inventando, aprendi a ler, quanto mais lia, menos inventava. Não porque a leitura estivesse me sufocando, mas estava me preenchendo, satisfazendo meu desejo de ficção. Os amigos imaginários, com nome, sobrenome e endereço fixo perderam espaço, ocupado então por personagens e enredos. A leitura me curou.

Juliana Heleno