Tem lugares que me lembram
Minha vida, por onde andei
As histórias, os caminhos
O destino que eu mudei…
(John Lennon / Paul McCartney/versão: Rita Lee)

 

Quem já não revisitou o passado e viu, com os olhos da memória, lugares que fizeram parte da infância, da adolescência, e que hoje são história?
E a memória nos prega boas peças: guardamos na lembrança um lugar que é só nosso, que passa a existir a partir de um olhar tão pessoal, e habita o coração. Aquela pracinha em frente à escola onde passávamos horas conversando, aquela rua em que jogávamos bola, aquele quintal da casa em que morávamos, aquele parque que conhecemos. Tudo, cada canto filtrado com olhos-de-criança que hoje… cresceram.
Quando temos o privilégio de voltar – voltar mesmo! – a esses lugares, percebemos que não, não é exatamente como a memória nos conta: o parque não tem duendes, o quintal não é tão grande, a rua não é tão larga, nem a pracinha tão animada.
Mas se tem um lugar que deve mesmo ser tudo aquilo que a memória conta – e muito mais! – é a casa da avó. Aquele sobrado antigo, se pudesse contar tudo o que viu as crianças aprontarem… Muita gente ficaria de cabelo em pé! E muita mãe sairia atrás dos filhos, ainda que crescidos, com um chinelo na mão para umas boas palmadas.
Cada canto escondia um mistério, uma história que a avó lembrava e compartilhava, os objetos eram mágicos, as cobertas se transformavam em cabanas num abrir e fechar de olhos. Os guarda-roupas eram belos e escuros esconderijos, embaixo da cama um refúgio para fazer as bobagens deliciosas da infância, a sala uma grande selva! A janela se tornava uma nave espacial que abrigava e tele transportava os netos, as roupas da avó e das tias eram as fantasias que caracterizavam qualquer personagem e a cozinha o lugar para fazer uma boquinha sempre que a fome apertava: roubar o nhoque para o domingo da geladeira também valia.
Mas bom mesmo era lá embaixo: o porão. Lugar proibido, esse sim era o esconderijo de tantas quinquilharias que aos olhos da infância revelavam a identidade secreta dos avós, que tinham uma missão secreta no mundo. E era onde deveriam estar as passagens secretas que toda casa antiga tinha. Crescemos procurando uma, mas… não tivemos sucesso.
Hoje, os olhos procuram novas paisagens, novos lugares para tecer a história, para revelar outras tantas belezas. Mas no coração, ah, no coração ainda mora a casa da avó e todas as peraltices que fazíamos por lá.

 

Deisily de Quadros