024---efigenia

Foto: Paulinha Kozlowski

Manhã de domingo, de um sol generoso, Largo da Ordem, muita gente passando, se espremendo entre as barracas de artesanato, aquele rumor de pessoas, raios de sol se infiltrando entre barracas e pessoas. E lá estava ela, brilhando ao sol como um papel de bala. Sua roupa era de papel de bala. Uma incrivelmente deliciosa vovozinha contadeira de histórias, esvoaçante como um passarinho, turbinava a imaginação dos pequenos que a rodeavam para ouvir o que tinha a contar, para ver seu movimento, suas traquinagens, seu voo para o lugar onde crescem ideias, desejos, sonhos.

Era de se ver: um mundo que se desenhava com seus personagens gerados e nascidos de mãos que nunca deixaram restos ociosos a envenenar o ambiente, criações de gota d’água no oceano, daquelas de que riem os incrédulos, ridículos incrédulos… eles não sabem das possibilidades da vida. Mas ela sabe, ela cria possibilidades, ela tece ilusões que abrem caminhos, ela vira passarinho e mergulha como um peixe nos mares das invenções, e se transfigura em criança peralta, de palavras borboleta, que se agitam entre os galhos da árvore Efigênia, o conto que se conta, a vida que se vive, planta que se esgueira, domando o impossível. Para lá de toda dificuldade se conta uma história, para além de todo fim se encontra o recomeço, quando termina o doce o papel vira ideia. E assim ela reinventa o mundo, em habilidades de mãos e de palavras.

Eterna brincante, de brinquedos e disfarces, de lutas duras transformadas em sorrisos, de restos virando imaginação, de corda bamba virando passarela, de aço virando semente e robô virando gente. Tudo o que não é pode vir a ser. Nas mãos de artista, nas rugas da vida, passo de menina, a mistura enlouquece padrões: não tente enquadrar, não tente definir, não queira amarrar, não precisa acalmar, deixe ser o que quiser, entenda como puder agora, que depois toma outra forma. Assim é Efigênia, bailarina do imaginário, poeta das mínimas coisas, cantiga de roda rodando sempre, sempre… sempre…

 Este texto é uma homenagem à Efigênia Rolim, a Rainha do Papel de Bala, que completa, este mês, 82 anos de existência mágica e indescritível. Parabéns, Efigênia!

 

Martinha Vieira

 

Para informações sobre a programação dos 82 anos de Efigênia, “A semente Efigênia na árvore da vida”, clique aqui.