023---silencio

Na tradução: “aproveite o silêncio”.

O post de hoje é breve, brevíssimo. Configura-se como um “manifesto”: nem comunista nem pela diminuição dos preços da passagem de ônibus, pela igualdade social e de direitos. Talvez, caso queiramos encontrar uma fórmula, poderia ser um Manifesto pela educação ao silêncio. Silêncio: me representa, seria o nosso bordão.

Ora, se somos seres de linguagem e por ela nos comunicamos de diversas formas, por que, então, o silêncio? Estaríamos propondo que o silêncio falasse? Mas não seria isso uma contradição performativo-proposicional? Na verdade, antes de fazermos o silêncio “falar”, desejamos permitir que o silêncio “deixe” falar. Que o nosso silêncio permita a manifestação do outro enquanto outro. Nos templos religiosos se exige o silêncio para que o eu se encontre com o tu, nós, eles e, por que não, com o eu-mesmo, consigo. Nas bibliotecas, pede-se silêncio para que a dispersão dos leitores pós-modernos possa se encontrar com os eternos amantes nomeados livros, páginas, parágrafos; encontro com o pensamento, já bem esquecido em nossa época. Os amantes, de modo sutil e nos momentos de maior cumplicidade, pedem ao outro o silêncio dos olhares, silêncio que fala e hipnotiza, silêncio que vincula, amarra… silêncio na forma de escuta e amor.

Nós também pedimos que o silêncio nos represente: silêncio que nos permita perceber o outro na sua singularidade; silêncio que seja caminho de reconhecimento da dignidade do conhecimento e da sua não redutibilidade à nossa imagem e semelhança; silêncio que leve a um lugar de escuta-de-si e de conhecimento de si. O inferno, diferente do que pensava Sartre, não são os “outros”. Mas a reunião de pessoas que apenas falam, mas não se comunicam. Vomitam frases desconexas, todavia são incapazes de escutar a palavra que emana da boca dos que estão à sua volta.

Mayco Martins Delavy