“Porque acho que a imaginação é apenas um instrumento de elaboração da realidade. Mas a fonte de criação, afinal de contas, é sempre a realidade. E a fantasia, ou seja, a invenção pura e simples, à Walt Disney, sem nenhum pé na realidade, é a coisa mais detestável que pode haver.” (Gabriel García Márquez)

 

Se você curte redações no melhor estilo “minhas férias”, essa é mais uma da série (as demais você pode ver aqui, aqui, aqui e aqui).

 

Várias vezes perguntei e fui perguntado: ler qualquer coisa é melhor do que não ler nada? Conforme minha personalidade claudicante, sempre coloco o “depende” no início da resposta. Até um tempo atrás, eu quase não pestanejaria. A resposta seria bem mais convicta: “sim, é melhor ler qualquer coisa do que não ler nada”.

Até que um dia parou nas minhas mãos um livro chamado O segredo, de Rhonda Byrne.

O livro é de uma picaretagem tão grande que, sempre que penso nele, revejo a pergunta colocada aí em cima.

Trata-se de uma coleção de “argumentos” estapafúrdios, sem nenhum fundamento. Páginas e páginas de psicologia de sexta categoria que chegam ao cúmulo de dizer que a força do pensamento positivo é capaz, literalmente, de materializar coisas.

É conto de fadas para adultos que creem em varinha de condão e em mudanças mágicas. Uma mistura esotérica de coisas sobrenaturais com “Física Quântica” (imagine oitocentas aspas antes e depois desse “Física Quântica”). E a indigestão é braba.

Qualquer adulto sabe que não existem fadas do dente e nem fadas de qualquer outra espécie. Não há varas de condão capazes de transformar nossos desejos mais secretos em realidade. Aliás, muitos sonhos não serão realizados, por mais que trabalhemos em cima deles. A chamada autoajuda é uma indústria de frustração. O otimismo risonha e abobadamente propagado nos livros desta espécie é uma fábrica de deprimidos, pessoas que se julgam fracassadas porque pensaram positivo sem resultados práticos.

E agora é que vem o ponto principal da minha reflexão: durante o recesso de julho, ao gentilmente ganhar um excelente curso de inglês nos EUA, me vi com um ingresso da Disney na mão. Fui, diverti-me nas montanhas russas, fiz amigos, confraternizei. E fiquei à noite para ver o show de fogos e o espetáculo de som e luzes no castelo. Tudo muito bonito, lembrando a estratégia das igrejas barrocas, fisgando o fiel pela beleza arrebatadora. Todos vidrados, eu inclusive, olhos e lentes das câmeras apontados para o castelo, de onde uma profusão de imagens fazia seu desfile.

E, na canção de fundo, coisas do tipo:  “as estrelas têm o poder de tornar os sonhos reais”, “eu desejo, eu posso”, “não faz diferença quem você é, tudo que seu coração desejar virá para você”, “eu estou desejando, um dia meu príncipe virá”, “confie em seu coração, apenas acredite”.

Pode ser ranzinzice da minha parte, mas não há menção alguma a trabalho, projeto e construção coletivos, mangas arregaçadas. É evidente que ter sonhos é essencial e valorizar isso na criança é muito bonito. Mas quando não tem nenhum lastro na realidade, quando tudo vira “passe de mágica”, eu fico perguntando se ali não está o ninho dos que mais tarde comprarão livros como O segredo (milhões de exemplares vendidos) para se agarrar a ele, sem entender direito que livros e leitura também podem ser prejudiciais à saúde. E que a enganação não tem limites.

Sonho por sonho, Bin Laden também tinha o seu. E tornou-o realidade. Sonho por sonho, George Bush também teve o seu. E fez suas guerrinhas se tornarem fato. Sem precisar de fadas, diga-se de passagem.

Se o meu sonho for diferente do teu e um impedir o outro de existir? Brigaremos? Guerrearemos?

Então, além de tentarmos evitar a balela “basta querer que eu consigo”, “peça a uma estrela que ela te dá”, acho que também precisamos avaliar nossos sonhos levando em consideração o outro, esse ser de vontades que às vezes ignoramos. E não podemos ter sonhos coletivos? Não seria mais fácil arregaçar as mangas e torná-los reais com o suor do nosso rosto?

Não sei se seria mais fácil. Se fosse, já teríamos feito. Bem mais fácil mesmo seria pedir para uma fada, um duende.

O problema é que eles não existem.

 

Um abraço.

Cezar Tridapalli

OBS: estou sempre aberto a mudar de opinião diante de argumentos fortes. Fique à vontade para me fazer pensar diferente.