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Não sou e jamais serei contra a existência de debates sobre os assuntos que afligem a sociedade, mas os argumentos que cercam o tema da homofobia e dos direitos das pessoas em relações homo afetivas, às vezes me chocam pelo grau de preconceito e obscurantismo que carregam. Isso é mais evidente e assustador no território livre e sem limites da internet, onde as pessoas se sentem encorajadas para disseminar as ideias mais absurdas, os posicionamentos mais reacionários e as posturas mais excludentes que possam existir.

Observei um exemplo disso na semana passada, quando li uma matéria a respeito do lançamento de um filme brasileiro chamado Flores Raras. A produção conta a história da arquiteta brasileira Lota Macedo e da poetisa estadunidense Elizabeth Bishop, que viveram um relacionamento amoroso no Brasil dos anos 50/60. Lota Macedo participou da criação do Parque do Flamengo (também conhecido como Aterro do Flamengo), uma das obras mais marcantes do urbanismo carioca contemporâneo. Como esse período tem uma importância expressiva na história recente do Brasil, fiquei curiosa em relação ao enredo do filme. Como será retratado o país daquela época?  Será uma visão da elite, ou algo mais plural? Qual o significado da obra no Flamengo para a cidade e para seus habitantes? Como será retratado o cenário político daqueles tempos, principalmente no que se refere às ideias do governador reacionário e elitista Carlos Lacerda? Como era a reação da sociedade diante da relação amorosa das duas protagonistas da história?  O filme também mostrará a exclusão social que afligiu milhares de brasileiros naquele contexto? Pensar essa produção, a partir da reconstituição histórica que ela propõe é muito interessante, e pode nos revelar como ainda hoje esses temas são tratados e lembrados.

Não estou dizendo com isso que todos são obrigados a gostar da proposta do filme. Contudo, me surpreendi com a quantidade de comentários negativos a respeito dessa produção, que condenavam a história única e exclusivamente por tratar de um caso de amor entre duas pessoas do mesmo sexo. Apesar de todas as possibilidades que o enredo apresenta de conhecermos um pouco mais sobre a forma de viver e pensar de uma época distinta da nossa, boa parte das pessoas se preocupou em enxergar somente o que o preconceito lhes ditava, pois sua necessidade de demonização retrógrada já descartou qualquer possibilidade de olhar além. É óbvio que a crítica é sempre necessária, mas ela não pode ser pautada exclusivamente no preconceito, pois isso é mesquinho, obtuso e resulta somente em intolerância, ódio e segregação social.

A arte sempre foi um dos meios mais belos e eficazes para diversificar os olhares e romper os preconceitos. E ao perceber o assustador avanço da intolerância que vivemos hoje, principalmente em situações corriqueiras como essa, é um alento saber que a arte ainda existe para cumprir o seu papel, pois os reacionários que me perdoem, mas a alteridade é fundamental!

 

Luciana Podlasek