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Gosto muito de uma teoria que diz que todo texto ficcional traz em sua estrutura um leitor implícito “que não tem existência real; pois ele materializa o conjunto das preorientações que um texto ficcional oferece” (Iser, 1996, p.73). Entendo que isso significa dizer, que é possível perceber nos textos ficcionais um leitor que foi pressuposto pelo autor, isto não está muitas vezes explícito nas linhas do texto, está nas entrelinhas, está nas referências que o texto traz, está na intertextualidade que ele apresenta  ou mesmo exige, nas lacunas que ele deixa para o leitor preencher, etc. Assim, quanto mais próximo o leitor real estiver do leitor implícito do texto, mais haverá possibilidade de leitura, por outro lado, quanto mais distante, mais difícil será a penetração no texto.

Falo disso, no entanto, para contar uma experiência recente de leitura. Ocorre que, aos 14 anos resolvi ler Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez. Confesso que o volume grosso suficiente para ser um peso de porta já era um tanto assustador,  mas eu estava tentando ler  “alta literatura”, segundo o cânone da minha professora de Língua Portuguesa da época. Frustração. Não consegui, me perdi entre os José Arcádios e os Aurelianos, não gostei do enredo, fui adiante da página 100 e desisti.

Depois disso li bastante coisa do autor  e hoje é dos meus preferidos. Quero até ir a Cartagena das Índias, mas esta é uma outra história. Mas, aqui cabe uma confissão: Cem anos de Solidão eu nunca mais havia encarado. Até o último 24 de maio quando, meio que por acaso, passei a mão no livro e o levei para uma viagem rápida de fim de semana. Foi um momento um tanto solene.  Abri o livro, um exemplar de capa vermelha, 78ª edição, li as 40 páginas de textos introdutórios e cheguei finalmente à página 43, disposta a encarar o texto ficcional:

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer  o gelo.” (primeira oração do livro)

 

A partir daí, li avidamente as 447 páginas. Macondo pra mim é a própria América Latina, em universo micro. Cem anos de solidão é como uma grande lenda, sobre nós, latino-americanos, e nossa história.  Foi uma experiência única de leitura de fruição. Foi durante a leitura que me lembrei da teoria de Iser e concluí que eu havia me tornado “leitora implícita” do livro.  Minhas experiências com Gabriel García, as leituras sobre a história da América Latina, o contato intenso com Galeano, as poesias de Neruda, os romances de Milton Hatoum e outras coisas tantas, me habilitaram para a leitura, porque leitura não é dom, é prática, se ensina e se aprende. Fico feliz tanto com a experiência quanto com a perspectiva, pois formar “leitores implícitos” pode ser um excelente trabalho para nós pais e professores. Mediar leituras, aproximar o leitor do texto, servir de ponte.

Fecho com uma pergunta que me veio enquanto escrevo: Quase tudo que li sobre a América Latina foi por conta própria, ensinaram-me muito mais sobre a história europeia do que a sobre a minha história. Por quê?

 

Juliana Heleno