011---mulher

 

Imagine que você encontra um homem e uma mulher lado a lado. Eles são atendentes de uma loja especializada em consertos. Entra um cliente: a quem ele se dirige, procurando arrumar o relógio?  Se você respondeu ao homem, acertou.

Isso não aconteceu uma, duas ou três vezes comigo. Vou explicar: a mãe da minha namorada, a Laís, tem um relojoaria. Vez ou outra, quando eu e ela precisamos ficar na loja, sempre entram pessoas para, na maioria das vezes, trocar a pilha do seu relógio. Se eu tivesse que fazer isso, faria. Demoraria umas 7 vezes mais. A Laís faz isso rapidinho. O problema é: eles nunca se dirigem à ela, apenas a mim.  Aí eu preciso fazer um redirecionamento: olha, eu não posso ajudar, ela é a pessoa que sabe fazer isso.

Não há outra maneira de pensar, a não ser essa: o homem é a pessoa mais indicada a mexer no relógio, logo me dirijo a ele. E é nesse ponto em que há o engano. O homem em questão, eu, mal consegue abrir um relógio. Contudo, para contra-argumentar meu próprio texto, a partir do momento em que ela, a Laís, vai fazer o serviço, parece não haver dúvidas, para o cliente, de sua capacidade de realizá-lo.

Olha, tenho um palpite sobre tudo isso: esse é um sintoma de um mundo, ainda muito, machista. Não que as pessoas que se dirigiram a mim sejam machistas propriamente, mas elas refletem o que está sedimentado sobre as diferenças de gênero. É pelo mesmo motivo que as mulheres ganham menos,  tendo a mesma função de um homem. É por isso que mulheres que são mecânicas, por exemplo, são chamadas ironicamente com nomes masculinos. É por isso que é necessário trazer problemas como esse à tona.

Para fechar a linha de raciocínio, utilizo um trecho de um artigo, assinado por Orson Camargo, do Brasil Escola:

 

O total das mulheres no trabalho precário e informal é de 61%, sendo 13% superior à presença dos homens (54%). A mulher negra tem uma taxa 71% superior à dos homens brancos e 23% delas são empregadas domésticas. Necessariamente, a análise da situação da presença feminina no mundo do trabalho passa por uma revisão das funções sociais da mulher, pela crítica ao entendimento convencional do que seja o trabalho e as formas de mensuração deste, que são efetivadas no mercado.

 

Diego Zerwes