010---excelencia

Tarde de sábado, e um pequeno incidente no supermercado: uma “simples funcionária”, atendente de caixa, sem imaginar “com quem estava falando” ousou enfrentar um senhor, abandonando o seu posto ao ser por ele insultada, não sei por que motivo. Não vi como tudo começou, mas quando estava no balcão de atendimento ao cliente, aguardando para realizar a troca de um produto, presenciei a moça que chegava ainda nervosa por ter abandonado o posto de trabalho, contando o fato às colegas e dizendo que não estava ali para ser tratada daquela maneira por um cliente. E lá vinha ele, exigindo uma satisfação, aos brados. Mas a moça, ao sinal do menor esforço para proferir palavra, levou um sonoro “cala a boca!” seguido por um “vou te dar ordem de prisão por desacato à autoridade!”. Olhem só! Não é que o homem se dizia um juiz? Um magistrado, fazendo um papelão desses?! Espumava de ódio e esfregava a sua suposta autoridade na cara de quem ousasse se meter com ele. E foi exatamente o que eu fiz, dizendo que ele estava cometendo um abuso de autoridade. Também fui, imediatamente, ameaçada de prisão. A partir desse momento a conversa foi privada entre gerente, funcionária e o “magistrado”.  Dias depois procurei o gerente a fim de saber o desfecho e me oferecer como testemunha em favor da moça, caso a situação tivesse ido adiante, ao que me respondeu que o homem não portava credenciais de juiz e que nada foi feito além de mover a funcionária de lá. Verdade? Ou uma evasiva para que eu não me metesse mais onde não era chamada?

Mesmo que esse homem não fosse um juiz, o fato me fez pensar em duas coisas, que me parecem estar muito relacionadas: o poder e a truculência. Foi o poder que ele invocou para rugir ameaças, pois já se estabeleceu tal vício nas relações sociais que a frase “você sabe com quem está falando?” virou um passaporte imediato para esse tipo de abuso.

Parece que muitas pessoas entendem o seu título de doutor como direito adquirido para esmagar o “ignorante”; sua condição social privilegiada como imunidade a julgamentos; seu porte de arma como potencial de recolher o outro ao medo da morte; sua força física como poder de submeter o franzino. Tudo indica que chegamos ao ponto central do problema: a experimentação do poder em suas mais variadas instâncias e a truculência como seu resultado.

Essa constatação me lembra outro fato, que ocorreu há bem mais tempo, na época em que Lula e Collor disputavam eleições presidenciais. Estava eu dentro de um ônibus, quando passamos por um acidente: havia uma pessoa atropelada no asfalto, e eu não pude ver, me senti mal. Mas um senhor, mesmo depois que deixamos o local do acidente, ficou comentando em detalhes o que viu num tom muito sensacionalista. Quando percebi que minhas pernas amoleciam e a vertigem se aproximava, pedi a ele que parasse de narrar o fato, pois não me  sentia bem.  Ao dirigir a palavra a ele, viu minha camiseta com a estampa do Lula. Foi o que bastou para que passasse a gritar comigo, dizendo que eu só podia ser do PT mesmo, e quem era eu pra dirigir a palavra a ele, e daí passou a “vagabunda, comunista”etc. etc.. Tive que descer bem antes do meu ponto, e eu que não sou de ficar quieta, não consegui dizer nada. Imagino que ele sentia ameaçada a sua ideologia política, que se afirmava por meio da truculência, o que ele reproduzia com perfeição.

Esse velho hábito que tomou vitamina para crescer durante a ditadura militar, e que podia ser identificado nos gestos vigorosos da publicidade que fez eleger Fernando Collor, ainda vive colado a muitas ações policiais e de seguranças particulares, no poder de um físico avantajado, de uma arma, de torcidas furiosas, de títulos e cargos. Todas estas situações representam, de alguma forma, instâncias de poder, pois são legitimadas por grupos, títulos ou aparatos que fazem  uns se sentirem mais fortes que outros.

O que se dirá, então, do poder judiciário, em que uma pessoa decide a vida de outras, escolhendo quem paga o preço e quem vai levar vantagem, muitas vezes ao sabor de achaques e interesses. Investido de títulos e formas de tratamento ofertadas generosamente pela gramática tradicional, que prescreveu como deveríamos chamar as “pessoas importantes”, definindo o seu status social e estabelecendo camadas e graus diferenciados de respeito, o poder de um juiz é assustador.

Esquemas de corrupção se estabelecem de forma crônica, não só entre políticos e não só nas últimas décadas, no toma-lá-dá-cá de todo-dia, que modela a rotina dando ares de normalidade às aberrações éticas, como essas que relatei aqui, ou em situações que chegam a níveis ainda mais graves, como um certo parlamentar que esmagou a vida de dois jovens com seu brinquedinho blindado, e até hoje não foi punido. Como um juiz que condena sem provas e se torna herói nacional. Como grandes fraudes a instituições públicas, como grandes golpes de mídia que induzem a opinião pública e a atitude coletiva para interesses que não são da coletividade.

Identificar essas situações e ser em coletividade, discutir, refletir, fiscalizar, é diluir poder, é redistribuí-lo por outras esferas. Esse é o papel do líder, essa é a grande revolução necessária para os tempos atuais: reconstituir o coletivo, descentralizando poderes extremos, diluindo máfias que se instituem em várias instâncias e, sobretudo, lembrar que não se faz democracia com truculência. A história do Brasil nos mostra que esse poder coletivo já conquistou uma democracia que se mantém hoje. Não vamos perder isso de vista.

Martinha Vieira