010---pedroa

 

Aquele pedacinho do centro de Curitiba era para nós, os Winters, um santuário da molecada. Os Winters! Ainda que não os  eternizamos no sobrenome, os trazemos nas veias e em dezenas de trejeitos, como uma paciência quase zem e uma certa diplomacia. No interior do que carinhosamente chamávamos de “beco” haviam, na minha época de infância, três casas: a da “omama[1] que morava na primeira casa e  as das “tantes[2]e seus  filhos, nossos primos. E esses nos interessavam mais diretamente. Que me desculpe a omama, que lá do camarote me acompanha como um anjo (espero não estar lhe dando tanto trabalho e pouco descanso), mas o que mais nos fazia esperar ao longo da semana pelo dia de apanharmos o ônibus “Pilarzinho” (depois seria o “Raquel Prado”), puxar a campainha[3] , desembarcarmos na Rui Barbosa, passarmos na frente da Igreja do Bom Jesus, com cuidado atravessar a Lamenha Lins e finalmente alcançar o portão sempre escancarado do beco na 297 da Pedrosa, era o Pinho, o Robertinho, o Sérgio, enfim os queridos primos que tinham mais ou menos a nossa idade. Tinha o Neny, o Beni, o Caco, o Tatá, a Tai, a Pita, a Zaza, a Regina, a Bernadete, a Sônia, a Babi, a Cíntia, todos primos e primas e havia sempre mais alguém, sempre com um carinhoso abraço para nos receber (mesmo que tivéssemos nos visto ontem), mais uma balinha de açúcar torrado na panela e uma rápida estória para contar. “Wie herrlich!” – exclamava invariavelmente a Tante Tete para qualquer coisa que contássemos. Alegria que emanava dos olhos e dos lábios num sorriso envolvente.

Podia fazer calor ou frio, não interessava, os meninos cumpriam o mesmo ritual tão logo chegavam. Todos, os moradores do beco e os visitantes do beco, pulavam o muro (eu, um dos mais novos e menores, precisava de uma ajuda, arrastava-me ao topo do muro, depois outra aventura: a descida do outro lado do muro) e tomavam de assalto o campinho dos Bettega, (ou seria do Duca… ou era a mesma coisa?).

O campinho era na verdade a parte dos fundos de um extenso lote, onde foram cravadas duas traves de madeira distantes (se a minha memória de infância não estiver exagerando) a uns vinte e poucos metros uma da outra. O capim, só nos cantos, digo num dos cantos, porque uma das linhas de lateral era o próprio muro! Lembro-me de uma árvore que fazia uma sombra gostosa do outro lado, lá onde ainda restava algum capim embaixo. No mais, era poeira – na semana que não chovia – ou barro.

Dos jogos de futebol em si, trago poucas lembranças. Não lembro de ter feito algum gol, nem de grandes jogadas. Sei que me deixavam participar. Havia algo de aldeia indígena nesse sítio tão urbano dos Winters: todos tinham vez, todo mundo entrava na brincadeira. Podia ser velho – o que significava ter apenas um pouco mais idade do que nós próprios – que largava o paletó, o sapato e a meia num canto, pulava o muro e, com o cigarro na boca e óculos na cara, já estava lá correndo e esbaforindo feito criança. Podia ser pequenininho, recém alfabetizado na escola e há pouco iniciado nos ritos de passagem dos Winters: ser convidado pelos adultos para escalar o Abrolhos, o Olimpo ou outra montanha do  Marumbi, era um deles, o outro também dava aquele friozinho na barriga:  pular o muro, desta vez não para jogar futebol, mas para brincar de… Sete Pecados!

Brincar?!?  Bem, não se podia deixar de enfrentar, do contrário nos chamariam de mädchen,  heulise, angsthase[4] e outras expressões tão desagradáveis quanto sua sonoridade. (Preciso fazer um parêntesis, uma confissão… na verdade, a língua alemã não me soa mal não, posto que nasci ouvindo-a talvez mais do que o português, e assim foi até os seis anos de idade, de modo que o alemão se alojou, encontrou um cantinho para botar sua rede, em meu  cérebro e no coração, onde passa férias, acho…).

Você vê como era esse tal de “jogo dos Sete Pecados”: mal comecei a lembrar dele, tortuosas lembranças infantis, e já escapuli para divagar sobre o idioma. Mas, como disse antes, não hei de fugir! O jogo consistia em cada participante fazer um pequeno buraco, suficiente para abrigar uma bola de borracha do tamanho de uma bola de tênis no meio do campo de futebol, aquela de chão de terra. Os buracos ficavam então enfileirados, um ao lado do outro. Os participantes, a uma certa distância, uns quinze metros, um por vez, mirava algum buraco e largava a bola, impulsionando-a, mais ou menos como se faz no boliche ou na bocha. Quando a bola caía em determinado buraco, o dono do mesmo, tinha que sair numa desenfreada corrida para catar a bola do buraco e procurar acertar em algum dos outros jogadores. Esses, mal viam que a bola não caíra em seu buraco,  já corriam pelo terrenão afora, escondendo-se pelas moitas, atrás da árvore frondosa e torcendo para não ser atingido pela bolada do desafortunado da vez. De duas, uma: se alguém fosse atingido, esse iria para o… paredão! Se o jogador, cujo buraco do campo foi ocupado pela bola, não acertou ninguém – o que ocorria na maioria das vezes -, então era ele que iria ao paredão.

O paredão… (deve ter me povoado os pesadelos e assombrado algumas noites dos meus oito, nove anos de idade) . Ficava o infeliz junto ao muro e de costas aos demais que, então, revezavam-se cada qual com sete arremessos lançados sem piedade nas costas do condenado, ou onde acertasse. E aí era um tal de torcer para que o Sérgio não estivesse participando da brincadeira. O fato é que ele tinha uma tremenda força e igual pontaria… mas, ele estava sempre lá, brincando conosco. Então, que passasse logo a vez dele…

Fim de tarde, e se era inverno, a tarde acabava antes. Sem perguntar para nós, o sol, sacana, deitava-se mais cedo em seu sofá do oeste. De modo que, antes do relento – esse  estranho monstro que minha mãe e as tias sempre pintaram como um bicho horroroso e que até hoje não sei bem quem ou o que ele é – pulávamos o muro do Duca de volta para o beco, o terreno da oma e das tantes. Mal dava tempo de engolir alguma bolachinha, um pão com manteiga e açúcar e todos pintados de poeira, os curumins alemoados embarcavam no fusca do Francisco, meu pai, ou na Kombi do Tio José e assim, tornavam a suas casas, onde antes era o começo do Pilarzinho. Os sonos ressonantes só não eram ouvidos porque o barulho do motor dos carros naquele tempo os encobriam, mas o certo é que para aquelas crianças parecia que havia passado uma eternidade.

Francisco Rehme, o Chicho.


[1] Forma com a qual nos refríamos à Vovó materna .

[2] Tias .

[3] Por muitos anos, para pedir ao motorista do ônibus parar em determinado ponto, puxava-se uma fina corda de nylon que passava longitudinalmente por toda a extensão do ônibus, entre o teto e as janelas, de modo a acionar uma campainha.

[4] Algo como “menininha”, “chorão” e “medroso”