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Em 2012, tive o privilégio de conversar por um bom tempo com o grande professor, poeta e músico José Miguel Wisnik. Falamos, entre outras coisas, da tola divisão que às vezes se faz entre música erudita e música popular, uma vez que ambas dialogam de modo muito intenso, bebendo-se e derivando-se mutuamente. E exemplos não faltam do quanto a combinação já resultou em composições e compositores espetaculares. O próprio Zé Wisnik é prova cabal disso.

Pensei nesse assunto porque estava tentando expiar um pecado que cometi no último feriado, quando viajei a São Paulo. Por que, afinal, me bateu uma culpa gigantesca? Resposta: porque fiquei morrendo de preguiça de visitar o MASP e porque suspirei aliviado quando descobri que não havia nenhuma bienal na cidade. Eu gosto, claro, mas não gosto sempre. Por outro lado, visitei o Mercado Municipal e andei pelas ruas do centro, onde se pode melhor observar a Belíndia paulista.

Para não dizer que não visitei museu algum, fui ao do Futebol, onde pude ficar outra vez de queixo caído com o modo como ele é organizado, e também me arrepiar na sala escura em que os gritos das diversas torcidas do país são ecoados em um torvelinho de imagens e multidões ensandecidas. Uma obra de arte precisa ser muito boa pra me tocar assim. O coro e as coreografias das torcidas proporcionam mais do que um prazer sinestésico, apenas superficial ou irracional, como podem fazer crer. Observar aquelas multidões gritando em desespero ou alegria, do uhhh ao goool, do quase ao fato, traz um entendimento muito particular da humanidade, explica algumas coisas sobre nossa espécie.

Comovo-me (movo-me junto) com a cultura do campo de futebol, os estranhos que conversam entre si, os solitários desconhecidos que se abraçam na hora do gol, os engraçados, os que falam alto a respeito de suas preferências técnicas e táticas. O prazer que tenho em torcer para o Atlético-PR, que parece tão exclusivo, que parece tão meu e tão próprio aos torcedores apenas do meu time, se mostra um prazer universal, sentido por todos os que se deixam abraçar pelo canto das multidões, suas palmas e palavrões. O torcedor de outro time, seja coxa-branca, araponguense etc, também tem esse direito, também sente esse prazer, também sonha conquistas interplanetárias e grita embalado por esses devaneios. Só escolheu outra cor de camisa.

Mais do que diferenças, temos muitas coisas em comum. Daí vem outra costura possível com as intercambiações e contaminações entre “baixa” e “alta” cultura, para usar o termo tão consagrado quanto pejorativo. Perceber as estranhezas e as identificações, o que nos aproxima e torna únicos, é uma capacidade tanto de Dostoiévski quanto do grito das torcidas, tanto de Lars von Trier quanto da violência que as mesmas torcidas podem protagonizar. Talvez as artes nos deem uma clareza maior e uma condição mais privilegiada para vestir outros pontos de vista, embora também saibamos que grandes apreciadores de arte não são necessariamente mais sensíveis aos problemas humanos. O tema não é fácil.

A arte nos dá uma capacidade – mas não a garantia – de ampliar e aprofundar a visão que temos de nós mesmos, do outro, do mundo. E esse “nós mesmos”, esse “outro”, esse “mundo” são a razão pela qual a arte faz algum sentido. Se não, “o verbo vira ovo eviscerado, só casca”, conforme o trechinho de um poema de Paulo Henriques Britto.

Dentre as tantas perambulações mundanas, terminei a visita a São Paulo assistindo a um jogo do Corinthians no Pacaembu.

Porém, como nem tudo é arte, o jogo foi ruim.

Cezar Tridapalli