“Cosme ainda estava na idade em que a vontade de contar dá vontade de viver, e se acredita não ter vivido experiências suficientes para contá-las…”  Ítalo Calvino – O barão nas árvores (p.144)

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Já defendi em posts anteriores e outros textos o papel fundamental que a literatura  tem na formação das pessoas e acredito, de fato, nisso. Acredito que ler possibilita uma ampliação do modo de ver as coisas, as pessoas, as relações, possibilita um outro olhar sobre o mundo e sobre nós mesmos. Não só porque ler traz conhecimento e conhecimento é algo que não se acumula, simplesmente. Um conhecimento não se soma a outro, necessariamente; muitas vezes subtrai, divide. Mas também porque o conhecer que a literatura traz é um conhecer que questiona, duvida, desinstala, desconstrói.

Mas uma questão que me provoca é que há tanta coisa no universo da literatura, tantos autores, tantas histórias, que me parece um universo infinito. É infinito, de fato, quando penso que minha vida de leitora comportará um pedacinho ínfimo daquilo tudo que o ser humano já escreveu. Nesse sentido me sinto pequena, me sinto “pouca”.

Um dos dilemas, portanto, que tenho com a leitura é escolher algo para ler no tempo curto que tenho. Otimização do tempo.  Queria sempre fazer escolhas preciosas e me angustio com aquilo que não conheço e que talvez nunca venha a conhecer. Fico pensando em quantos bons textos existem em inúmeras línguas, tantas inacessíveis.  Penso nos personagens que não conhecerei. E é por isso que tenho tanto apreço por indicações e elas normalmente vêm do irmão, de algumas amigas e amigos, de críticos que respeito, que me ajudam a escolher o próximo passo nessa teia que é o mundo da literatura.

Foi por indicação que cheguei ao escritor Ítalo Calvino e ao seu romance  O barão nas árvores (obra de 1957, traduzida para o português em 1991). E a pergunta que me faço ao terminar o livro é “E se ninguém tivesse me indicado?”. Medo. Medo de ter perdido esta oportunidade. Que bom ter conhecido Cosme, o personagem principal, e sua irritante tenacidade que o mantém acima da cabeça dos demais personagens e do leitor por mais de 250 páginas. Que bom ter sentido vontade de empurrá-lo da árvore para que ele se parecesse mais conosco e com nossos projetos instantâneos e imediatistas. Cosme é marginal, por escolha, abre mão de sua nobreza e das amarras que esta lhe impunha e com isso amplia o seu universo, pois de cima das árvores participa de muitas aventuras e conduz o leitor pelo contexto de transformações da Europa na virada do século XVIII para o XIX.  Estando distante, Cosme enxerga a realidade que o cerca com maior amplitude e age sobre ela, sendo visto às vezes como herói revolucionário e outras como louco.

Fecho a última página com a sensação de perda que me acompanha sempre quando chego ao fim, é hora de desfazer o pacto narrativo estabelecido e abrir-se para uma próxima oportunidade. Quero confessar, porém, antes de despedir-me, que escrevi este post não apenas para fazer propaganda do livro, mas principalmente para revelar que este livro me foi indicado pela minha filha mais velha e que li o romance como se ela me puxasse pelas páginas, me mostrando o caminho. De vez em quando me perdia na história pensando o que será que ela havia achado desta ou daquela passagem. Ter filhos exige assumir, todos os dias, o papel de educar, de ensinar, de conduzir. Confesso que gostei muito de receber a indicação desta jovem leitora. É um prazer enorme saber que tenho, bem perto, mais uma garimpeira.

“Cosme adquirira uma paixão desmesurada pela leitura e pelo estudo, que lhe ficou pelo resto da vida.” (p.115)

Juliana Heleno