002---voz

Voz. Já pensou para pensar nessa palavra? Ela em si pode ser só uma voz, ou a voz. Mas também vós, a vós, avós. Achei bonito pensar nela assim, como múltipla, já que a minha tem ficado cada dia mais escassa. Fisicamente prejudicada. Fisicamente, aliás, é uma outra maneira interessante de pensar a voz, como um som, imaterial, que se dá “pelas vibrações das pregas vocais sob pressão do ar que percorre a laringe”. Se meus conhecimentos matemáticos permitissem, estabeleceria uma fórmula com as variáveis ar, diâmetro e força, resultando em timbres.

Pensando bem, melhor ficar no campo onírico, fechar os olhos e lembrar os timbres de que mais gosto. A voz sensual de Jorge Ben, os gritos rasgados de Gal, a saudade da voz de meu pai, a voz idealizada de um amor que passou, as vozes finas e de minha mãe e irmã, pra não pensar na minha – espelho – e nos alunos que têm de ouvi-la diariamente.

A voz rara de minha analista, pontual, me mostrando um eu inconsciente. A voz do outro que passa a ser minha também, as vozes do discurso. A voz do povo; esse povo acontecendo e nos fazendo perder a voz. Ou, pelo contrário, leitmotiv para correr atrás de uma voz e gritá-la a todas as outras vozes. A voz do ditador e: quantas são as suas? Os verbos têm somente que se decidir entre ativos e passivos.

Eu sou muitas, e acabei de descobrir que a circunstância sem voz é ótima. Justo eu, que falo tanto, muito, às vezes sem nem querer, que me julgava a dona da voz, tive que me render à voz do dono e descobri todas essas possibilidades vorazes.

 

Letícia Magalhães