homem necessitado, carregado de preocupações, não tem senso para o mais belo espetáculo.
Marx (Manuscritos econômico-filosóficos, p. 12).

What we are confronted with is the prospect of a society of laborers without labor, that is, without the only activity left to them. Surely, nothing could be worse.
H. Arendt (The human condition, p. 5).

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A reflexão proposta na data de hoje nos convida a traçar algumas linhas sobre o seu significado profundo, sua abrangência e pertinência. Infelizmente, tempo e espaço não são categorias tão fluídas, nos fazendo passar da amplitude ao recorte e do recorte à reflexão. Contamos com o olhar atento do leitor que, do simples ponto de partida de questões tão específicas, dará a grandeza necessária ao tema, se assim o desejar.

Vocês já perceberam que falamos do 1º de maio, dia do Trabalhador, dia do trabalho, dia de pensar, diríamos, a pertinência do trabalho na sociedade contemporânea. Antes mesmo de mergulharmos nesse trabalho, poderíamos nos perguntar como foi constituída, no ocidente, a imagem de trabalho? Em que consistia, para um grego ou romano, o trabalho? Será que trabalhar, para os antigos, seria trabalho para nós, modernos? Ou, de modo inverso, não seria o nosso trabalho uma forma de escravidão para os antigos?

Provavelmente, se tivéssemos a possibilidade de conversar com um cidadão grego do período clássico e com ele partilhássemos algumas das nossas rotinas diárias, explicando-lhe que “fazemos isso porque é o nosso trabalho”, ele definiria o trabalho hodierno como “escravidão assalariada”, ou algo do gênero. O exemplo acima citado, neste caso, pode nos trair um pouco, afinal nem só de “ossos” vive o oficio, não é? Ora, ainda estamos no plano do trabalho na sua forma “geral”. Mas, bem sabemos que toda definição também opera por exclusão e, quando dizemos que o trabalho é X, implicitamente dizemos que ele não é Y, N, Z.

 

Neste caso, ao lermos a nossa sociedade, o que não é considerado como trabalho? Arte? Atividades reflexivas? Como toda certeza, em alguns meios, essas duas atividades são consideradas um sub-trabalho (subemprego). É claro que quando pensamos em arte, não temos mente um personagem como o nosso Vik Muniz, homem brilhante, já incorporado ao ethos cult das classes mais abastadas, recebendo o reconhecimento do seu TRABALHO. No entanto, e para o “pequeno” artista, aquele que produz a arte totalmente desconhecida, como se dá essa constituição de identidade? Neste caso, veremos que a coisa começa a complicar e o nosso filtro do que é e o que não é trabalho opera de modo mais rigoroso, mesmo que sutilmente.

Algo semelhante acontece com os considerados desempregados… e esse nome nos soa tão estranho, tão pesado, tão duro de ser pronunciado… Tenho a impressão que com esse grupo de pessoas, a coisa complica ainda mais, e me explico: na quitanda próxima da minha casa sempre encontro um mendigo chamado John Lennon (o  nome é fictício), cujo apelido é Ronaldinho Gaúcho e, apesar de reunir em si dois gênios, musical e futebolístico, o pobre continua tão miserável como se fosse um Zé Ninguém, a pedir um trocado para comprar uma cachacinha, por que ninguém é de ferro. Uma noite dessas, saindo da quitanda, comecei a conversar com o Ronaldinho… conversa vai, conversa vem… abraços e despedidas… No retorno para minha casa, grande foi a surpresa quando, subitamente, estava eu a confabular um curriculum vitae para o meu amigo Lennon: profissão, experiência profissional, qualidades e habilidades para a função… sem dar-me conta, já tinha pensado nas pretensões salariais do sujeito E aí começa mais um dilema: onde é que está escrito que, para ser feliz, deve-se ter carteira assinada, previdência privada, plano de saúde… bláblá…? ethos normativo da nossa sociedade trata o individuo que não trabalha como um doente… Sob esse aspecto, o mendigo, o andarilho, o pedinte operam como destruidores “epistêmicos” do nossos status quo, sempre a nos falar: olhe bem para as tuas opções de vida, veja bem que, enquanto tu gastas os teus dias a sustentar grandes projetos, a vida continua a se desgastar, a se esvair…

Pelos caminhos do mundo,

Nenhum destino se perde:

Há os grandes sonhos dos homens

E a surda força dos vermes.

(Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência)

É claro que, no exemplo acima, esse questionamento não é feito de modo livre e consciente: infelizmente, o indivíduo que se encontra lançado à sarjeta das nossas belas e ordeiras ruas, a cada dia com mais policiais a proteger os cidadãos de bem, na maioria das vezes não teve muitas possibilidades de escolha antes de assinar a escritura do terreno debaixo da ponte e do meio-fio. Foram circunstâncias sociais e, em alguns casos, existenciais que o empurraram para lá. Ao mesmo tempo, para aquele que está totalmente inserido no sistema, esse mendigo funciona como um grande outdoor a berrar: veja, trabalhador que és, um dia poderás estar ocupando essa vaga que hoje é minha. Ou, de modo mais negativo ainda: veja que o lugar que eu ocupo hoje é fruto da vagabundagem assumida por mim ao longo dos anos…

Ora, para onde foi o trabalho, nos perguntamos? Até agora, na verdade, falamos da validação discursiva do trabalho: para que se trabalhe, não basta levantar todos os dias às 5h da matina e empreender alguma função! É preciso estar na ordem do trabalho, estar dentro de uma esfera discursiva que valide o que você, individualmente, chama de trabalho. Recordo-me de um filme bem antigo que fala sobre a colonização europeia na América do Norte: estavam conversando um padre e um colonizador sobre as “qualidades” do índio. De repente, um fala para o outro: “Nossa, que estranho, como é possível que um índio não saiba a importância do uso da bússola para a localização no espaço… que povo mais atrasado”. Algumas cenas depois, o padre e o europeu entram mata a adentro (uma selva muito densa) e, depois de uma breve caminhada, acabam perdendo a rota, não sabendo mais onde estavam, mesmo com a ajuda da bússola. Com medo do incerto, começaram a gritar por “socorro”. Próximo deles havia um pequeno grupo de índios, e um diz para o outro: “Nossa, que estranho, como eles podem se perder na mata? O povo branco  não tem sabedoria”… O exemplo revela um pouco dessa validação discursiva: o saber do índio é tão ou até mais importante que o saber do branco, europeu, colonizador, mas, por não ser referendado por determinada comunidade, perde o seu “valor” (e aqui pensamos em uma comunidade que detém, inclusive, poder de coerção etc).

Por fim, afirmamos a importância da ação humana para a constituição de um mundo, do Lebenswelt, espaço onde as coisas tomam sentido/forma para a nossa existência. Esse mundo, por mais caótico que nos possa (a)parecer, precisa da ação individual de um sujeito que se agregue a ele como corresponsável, como constituidor do mundo-para-si.

O TRABALHO, aqui, não deve se reduzir a mera obrigação a ser cumprida e, ao final do mês, substancializada na forma de SALÁRIO, mas intervenção no mundo, questionamento, ato de criação e, por isso mesmo, recriação da realidade bruta que nos é dada todos os dias. Idealista demais? Talvez. Todavia, sem uma potência inventiva/criativa que nos leve para além do meramente factual, que nos impulsione a abraçar uma causa maior que a nossa existência individual, o pessimismo parece tomar formas monstruosas, fazendo de todo trabalho, exploração…

E não há melhor resposta

Que o espetáculo da vida:

vê-la desfiar seu fio,

que também se chama vida,

ver a fábrica que ela mesma,

teimosamente, se fabrica,

vê-la brotar como há pouco

em nova vida explodida;

mesmo quando é uma explosão

como a de há pouco, franzina;

mesmo quando é a explosão

de uma vida severina.

(J. Cabral de Melo Neto, Morte e vida Severina e outros poemas, p. 115).

Mayco A. Martins Delavy