consumo

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“Para se conhecer as coisas, é preciso dar-lhes a volta; dar-lhes a volta toda” – José Saramago (1922 – 2010)

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“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem” – Bertold Brecht (1898 – 1956)

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A desigualdade social, ou seja, a diferença muito grande que existe entre ricos e pobres faz do Brasil uma indústria de contradições cujo produto interno bruto não para de crescer.

Uma das cenas mais emblemáticas desta disparidade está na clássica imagem presente em todas as médias e grandes cidades brasileiras: um carro parado no sinal, um pedinte se aproximando, o carro fechando o vidro, se afastando.

Nós temos, é claro, medo de ser assaltados.

Tudo isso é algo muito óbvio. Vou, então, tentar pretensiosamente fugir desse óbvio. As perguntas que eu quero propor a seguir têm a ver com o seguinte: se temos medo de ser assaltados, seria exagero inverter a lógica e dizer que estes mesmos suspeitos esmolambados que se aproximam de nós, furtiva ou ostensivamente, já nasceram assaltados? Ou que estão sendo assaltados dia após dia, roubados de seus direitos, das oportunidades, da justiça? Se aceitarmos a premissa de que “eles”, a quem julgamos assaltantes em potencial, forem mesmo assaltados sociais, a pergunta óbvia a ser feita em seguida é: quem os assalta?

Fico pensando em quem entraria na minha lista de suspeitos, ou candidatos a verdadeiros assaltantes: engravatados de grandes corporações infiltradas no estado farejando negociatas? políticos financiados por interesses privados? pastores achacadores que exploram a ingenuidade alheia? o policial corrupto? o professor blasé e de má vontade? eu? você? e a lista vai aumentando e agregando todo aquele que, pessoal e profissionalmente, quer apenas o bem para si mesmo e para os seus, passando com seu trator de ideias prontas e boçalidade sobre todas as sutilezas e cores que estejam fora de seu estreito espectro.

Sob esse novo ponto de vista, somos todos suspeitos. Como reagiremos se o outro atravessar a rua ao nos ver passar? Será um alívio cínico? E se isso começar a se repetir a toda hora, dia após dia?

Quem deveria fugir de quem?

É óbvio demais que um assalto à mão armada para roubar alguns trocados é um ato violento. É difícil duvidar disso. Mas existem tantas violências que parecem naturais e que, por nos serem convenientes, ganham permissão para ficar adormecidas. Ou você não acha violenta a SUV blindada devoradora de espaço público ultrapassando e buzinando para o carrinheiro que puxa papel e “atrapalha” o trânsito? Ou você não acha uma violência a quantidade de sacolas que brotam das mãos tentaculosas de modelos sorridentes do shopping? Ou você não acha violento o garoto-propaganda urrando na sua TV para que você compre uma outra TV em 417 prestações? Ou você não acha violenta a correspondência do cartão de crédito que chega sem você pedir à sua casa, oferecendo empréstimos a juros ladrões e produtos que garantem a sua felicidades pelos próximos 5 minutos? Ou você não acha violenta a nossa intenção de interferir nas relações e opções afetivas das pessoas? Ou você não acha uma violência criar um conjunto de lojas cercadas de muros por todos os lados e definir quem pode e quem não pode usufruir a felicidade enquanto durar o estoque? Ou passar por uma rua cujas casas estão de costas para você e cercadas por muros medievais monitorados por câmeras que te vigiam? Ou assistir aos intervalos dos canais infantis? Ou ver o cão raivoso que apresenta os programas policias condenando suspeitos? E se todos somos suspeitos? E se a nossa carinha aparecer nesses programas?

Tantas violências.

Um abraço.

Cezar Tridapalli