“E os que foram vistos dançando, foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.” (Nietzsche)

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Não é meu objetivo abordar assunto tão complexo com algum fundamento científico, pois não o tenho. São apenas reflexões sem nenhum fundamento, pois, todos os dias, rotulamos e somos rotulados sem nenhum fundamento. Basta que alguém não preencha um quesito do que chamamos padrão de comportamento para que mereça o rótulo de doido, fora da casinha, lunático, parafuso a menos. Mas qual é mesmo o parâmetro para tamanho e apressado julgamento?

Quero lembrar aqui um conto de Machado de Assis, “O alienista”, em que o embate entre razão e loucura é travado sob a cética e genial ótica machadiana. Trata-se de um médico, o Dr. Simão Bacamarte, que dedica a sua vida aos estudos e à busca da cura para a demência. Ele escolhe uma pequena cidade para colocar em prática suas teorias, abrindo uma casa para cuidar das pessoas que, consideradas dementes, eram retiradas de circulação e encerradas em seus próprios lares até a morte. Se antes o julgamento era estabelecido pela família e amigos, agora era o Dr. Bacamarte quem o fazia. O equilíbrio perfeito de todas as faculdades mentais, para ele, consistia em estar exatamente em cima da linha das condutas sociais e morais e do controle absoluto dos ímpetos. Portanto, estavam encrencados os hipócritas, gananciosos, vaidosos, avarentos, tolos, mentirosos, maldizentes, fofoqueiros e tantos outros que revelassem vícios ou faltas com relação ao comportamento ideal. Mas, depois de internar quase toda a população, o alienista revê a sua teoria, invertendo-a: o normal seria, agora, o desequilíbrio das faculdades mentais. Assim, ele libera todos os seus “doentes” e passa a recolher e a tratar aqueles cuja perfeição moral se mostrava constante. E a cura? Corromper a virtude. O que não foi difícil, mas levou o alienista a repensar mais uma vez as suas teorias, concluindo que não havia incutido nada em ninguém, mas apenas despertado algo latente, terminando por recolher a si próprio à clínica, pois era o único que teria de fato o equilíbrio mental e moral: “… pareceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto.” (O alienista – Machado de Assis).

E agora, o que é normal? Vivemos em um tempo de síndromes e distúrbios diagnosticados. Chegamos a um ponto que os remédios governam o centro nervoso das atitudes, controlando o sono, a atenção durante as aulas, as dores, as sensações desagradáveis, as angústias, as desilusões. Agora é proibido sentir as múltiplas faces da vida. Só vale o prazer, o entusiasmo, a euforia, custe o que custar. Damos o exemplo dopando os sentimentos, e depois não queremos que nossos filhos usem drogas. Será esse o novo padrão de normalidade? Amortecer tudo o que não for desejável, criar uma imagem, uma casca, para ser apreciada nas redes sociais e curtir a vida descontroladamente?

Então, felizes são os loucos, aqueles que ouvem a música e dançam todos os passos dela. Felizes os que não contribuem para que o mundo adoeça, pois ao que tudo indica o padrão escolhido pela sociedade a está adoecendo, consumindo todo e qualquer recurso natural, destruindo qualquer senso de coletividade, situando o prazer individualista como centro das necessidades básicas.

Deveríamos aprender com o Dr. Bacamarte que a postura extremada instaura o terror, e que “o terror é também pai da loucura”, pois a partir da sua instauração as reações se agravam, as tendências se intensificam na base do tratamento de choque, causando profundas distorções. E se o padrão de normalidade escolhido pela maioria for extremista, tudo o que for diferente se torna abjeto, o excerto, a falha. Todo aquele que deixa algo de muito seu escapar, invoca sobre si a possibilidade da execração social e, talvez, do isolamento.

Tenho visto, pelas ruas, um senhor de uma certa idade, arrastando um aviãozinho de lata, possivelmente feito por ele mesmo. Fico pensando nele, e em tantas outras pessoas incomuns que encontro no anonimato das ruas, que proferem discursos inflamados no ônibus, que travam lutas imaginárias com um demônio feroz para salvar a alma dos transeuntes, que saem cantando pelas calçadas com o olhar ausente, atraindo olhares curiosos. São vontades que temos, muitas vezes, mas seguramos o ímpeto diante de estranhos. O que faz com que algumas pessoas revelem tudo de si, sem o menor cuidado? Seria excesso de confiança nos outros? Ou não ter nada mais a perder, nem mesmo temer a exposição pública? Ou profunda solidão, carência? Talvez situações extremas causem esse sentimento de não temer mais nada, nem o julgamento da sociedade. Às vezes me pergunto quanto de tudo isso poderia ser evitado com um convívio mais saudável entre os seres humanos. Se a solidariedade fosse de fato a marca humana, levada muito a sério, se a acolhida a todo e qualquer tipo de ser humano fosse praticada como algo natural, os excessos não seriam necessários. Ninguém precisaria gritar ao mundo a sua existência das formas mais constrangedoras se não fosse ignorado.

As visões diferentes relativizam o julgamento, e o dinamismo dos contextos nos obriga a rever sempre nossos padrões. Mais do que nunca precisamos rever os padrões que estamos adotando, pois, ao que me parece, a escolha tem sido estimulada de forma pessoal e solitária, o que no conjunto se torna perigoso, pois a soma de todas essas escolhas solitárias pode resultar numa forma de solidão e de intolerância coletiva.

E se isso for a normalidade, prefiro dançar a música que a maioria não ouve.

 

 

Martinha Vieira