“A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata” (Italo Calvino, em As cidades invisíveis)

 

O segundo poema que escrevi na vida, por volta dos 14 anos, terminava assim, nunca me esqueci: “a cidade é tão linda na hora do blecaute / um nocaute técnico / épico onde não existem heróis / só eu / só tu / só nós”.

Se prova de nossa evolução é começarmos a negar o que escrevemos no passado, então não evoluí. Gosto desses versos e estou certo de que minha inaptidão para poemas hoje me impediria de alcançar a qualidade de outrora. Desaprendi a poesia das palavras atomizadas, que explodem de sentidos múltiplos, que dizem muito com pouco.

Uma cidade ser linda no escuro não é propriamente uma imagem otimista (assim como não seria uma boa ideia declarar à amada pouco imaginativa “meu bem, você é tão linda no escuro”). Mas fica claro mais para frente que a cidade precisa de cada um mais do que de qualquer grande herói épico. Estamos sozinhos juntos. O escuro é terreno fértil para a imaginação e imaginação mais recordação andam de braços dados. Porque a recordação preenche os espaços esquartejados por objetos materiais, muros, viadutos, cercas, postes, edifícios. A memória é a substância que completa as cavernas ocas do espaço material de que a cidade é parcialmente feita. Ela é que dá peso e volume, conceito e sentido. A memória grita do passado “não se esqueça do que fiz, do que fui”, enquanto a imaginação recomenda “não se esqueça do que podemos fazer, do que podemos ser”. Preservar memória, além de salvaguardar sanidade mental como indivíduos, nos impediria de cometer as mesmas insanidades que civilizações anteriores à nossa cometeram, e daria espaço para a imaginação propor mudanças de rumo.

Se não me falha a memória, nenhuma sociedade que segregou conseguiu ser mais exitosa, mais feliz. No entanto, continuamos a querer eliminar o miserável (atenção, eliminar o miserável, não a miséria, pois para isso nos falta imaginação), o homossexual, etc jogando-o para lugares longe da nossa vista, seja o presídio, o sanatório, a favela, o cemitério.

Se “a cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata”, o que pensar de uma sociedade desmemoriada, sem recordações? Só posso pensar em atrofia de artérias, ressecamento de dutos, asperezas e atritos, rabugices e intolerâncias. Da mesma forma, a cidade sem imaginação padece, e suas utopias dão lugar a uma eterna repetição de vícios, de rotinas cinzas, da cinza dos sonhos.

Uma cidade sem memória e imaginação fica parada ruminando no congestionamento a vida toda, ela reclama do carnaval, ela quer acabar com a Quadra Cultural, ela quer eliminar as prostitutas do Passeio Público, ela repete o mantra de que vive em uma cidade modelo, ela vai assistir emocionada a Les miserables, mas chama de vagabundo o bêbado que lhe pede um troco depois.

Esponja seca.

Um cidade sem memória e imaginação.

 

Cezar Tridapalli

 

OBS: o nocaute técnico nos deixa grogue, mas não derruba.