Ela veio sem muita conversa, sem muito explicar. Só sei que ainda não falava, mas tinha sempre um sorriso pra dar.  É um roubo descarado de Chico Buarque. Mas, calma lá, deixe-me explicar.

Esse texto não é acadêmico, não é sobre educação, sobre nada talvez que você espere de um blog de midiaeducação. Isto aqui está mais para um desabafo, um choro, um grito, ou, melhor, uma daquelas histórias que você tem necessidade de contar. É o compartilhamento de uma angústia. Espero, portanto, que o leitor não se sinta incomodado.

A história é sobre essa menininha fofa aí da foto. Ela se chama Sophie e é minha prima. Na verdade, é filha da minha prima. Antes que você pense que lá vem aquela coisa estranha, que sempre nos contam, sobre um conhecido do vizinho do amigo do pai teu amigo, eu tinha um contato muito forte e próximo com ela. Meus tios, e minha prima, moram exatamente ao lado da minha casa.

Ela nasceu 05 de janeiro de 2012. Confesso que não nunca tive um contato tão grande e contínuo com uma criança, assim, recém-nascida. Por isso, o laço de afetividade que nutria por ela foi grande e, como não poderia ser diferente, só aumentou.

Até os 6 meses de idade, ela teve uma vida igual a qualquer outra criança. Em agosto do ano passado, ao fazer uma consulta de rotina (e também por conta de uma febrinha e uma infecção na garganta), a doutora reparou que seus rins estavam muito maiores que o normal. A partir daí, mais 5 dias foram necessários para que fosse diagnosticada uma séria doença: leucemia.

A comoção de todos foi enorme, inclusive do corpo médico, das enfermeiras e dos funcionários do hospital. Todos conheciam ela. Quando havia a necessidade, a fila da doação de sangue do Hospital Erasto Gaetner ficou tão grande que já não havia mais lugar para estocá-lo. Desde agosto até fevereiro, agora, ela passou mais tempo no hospital do que em casa. Inclusive por conta da forte quimioterapia, as visitas eram controladas e quando elas aconteciam, os amigos da Sophie sempre tomaram uma série de precauções, como usar um avental de precaução por contato, máscaras e a limpeza das mãos com álcool.

Na época do Natal, aproximadamente, a leucemia em si foi curada, e os exames apontavam que não haviam mais células cancerígenas em seu sangue. O tratamento da quimioterapia ainda permaneceu, até porque, como diz o senso comum, o câncer pode aparecer de súbito novamente. Com a imunidade baixa por conta do tratamento, ela teve umas 3 ou 4 vezes pneumonia, que também foi controlada. Além dos medicamentos para combater esses problemas, outros remédios foram ministrados.

Na terça-feira de carnaval, ela estava com febre e diarreia. Seus pais, portanto, levaram-na até o hospital. A médica decidiu interná-la, já que ela estava fazendo tratamento para uma doença muito séria. Seu quadro era estável até a madrugada de sexta para sábado, até que, após uma piora e muita insistência – que valeu até uma feia discussão com o médico – para que fossem atendê-la, ela conseguiu com que fizessem um exame. Diagnosticaram, então, a volta da pneumonia. Ela já estava tomando antibióticos, portanto os medicamentos continuaram o mesmo.

Na madrugada de sábado para domingo, fomos acordados lá pelas 3h da manhã, com o telefone tocando. Minha tia, vó da Sophie, acabara de nos contar, aos prantos, que ela teve uma parada respiratória e estavam tentando reanimá-la. Eles foram correndo para lá. Não demorou muito para que o telefone tocasse de novo nos informando do pior: ela tinha acabado de falecer. O que aconteceu, na verdade, foi uma parada cardíaca e os médicos não demoraram para perceber o que estava acontecendo. Tentaram de todas as maneiras fazer seu coraçãozinho funcionar novamente. Não conseguiram.

Bem, após esse relato, e de pensar por duas semanas sobre isso, as coisas que mais incomodam são: ela nunca deixou de sorrir (nunca mesmo), mesmo quando se sentia mal após as sessões de quimioterapia. Ela era alegre. Do seu rosto emanava felicidade. Ela foi extremamente forte, não fosse a falta do cabelo, nunca daria pra reparar que ela fazia um tratamento tão agressivo. Não irei vê-la crescer, começar a falar, começar a andar. Não vou conhecer seu namorado e fazer uma piada sem graça com ele. Não vou ver ela ir pra escola. Não vou ver ela cair de bicicleta. Não vou ver ela levando uma bronca porque aprontou. Outra coisa: ela nunca teve a consciência plena daquilo que estava acontecendo. Aqueles momentos de dor e sofrimento ela nunca pode encarar como sendo uma coisa passageira, mas como uma parte inseparável do todo, como sendo sua própria vida, assim como uma criança aprende que a alimentação é uma coisa comum.

Mas quando eu penso em tudo isso, eu olho pra mãe dela, a Carol. E quando eu olho pra Carol, eu tenho certeza que a Sophie seria exatamente como ela. Exatamente mesmo, porque eu as acho muito parecidas, fisicamente também. Não me lembro da Carol quando criança (temos idades bem próximas), mas quando eu tento imaginar, consequentemente vejo a Sophie. Se a Sophie foi extremamente forte, uma guerreira (como todos sempre a chamaram), a Carol em nada foi diferente.

Era essa angústia, leitor, que nesse ponto do texto já posso chamar de amigo, que eu queria compartilhar com você.

 

Ps: vale lembrar que em alguns casos de leucemia uma doação de medula óssea pode salvar uma vida. Não foi o caso dela, mas há muitas pessoas que precisam. São apenas 5ml de sangue.

Diego Zerwes

É publicitário (UP) e Especialista em Literatura Brasileira e História Nacional (UTFPR). Trabalha na Comunicação do Colégio Medianeira. É tradutor (diletante) da vasta obra musical de Leonard Cohen, publicada periodicamente no Traduzindo Leonard Cohen.
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