É bem provável que você já tenha escutado um conhecido comentar, espantado e admirado, sobre as incríveis habilidades tecnológicas das quais o sobrinho ou o filho possuem por mexer em celulares, tablets, entre outras traquitanas da vida moderna. Orgulha-se em dizer que a criança mal sabe falar, andar, mas que já consegue jogar, desenhar, tirar fotos e gravar vídeos! E por fim, não menos entusiasmado, é possível que comente sobre como a geração atual de crianças e jovens é muito mais habilidosa com esses equipamentos do que gerações anteriores. Então paro e me pergunto: será mesmo?

Obviamente, quem nasceu em um período de massificação e popularização da tecnologia, como de alguns anos para cá, teve a oportunidade, ainda criança, de lidar com inúmeros periféricos eletrônicos: de robustos controles remotos a modernos tablets e telefones celulares. No entanto, a facilidade em manusear objetos eletrônicos, cada vez mais intuitivos, se dá devido à interface e ao minimalismo de teclas, pensados e planejados para facilitarem a vida do usuário, independente de sua idade, não torna a criança ou o jovem contemporâneo mais inteligente que aquele nascido em décadas anteriores. São apenas diferentes.

Apertar ícones em telas brilhantes não torna essa criança mais apta nos blocos de montar, nos jogos de tabuleiro ou no próprio processo de caminhar. Mais ou menos assim: não é porque você sabe mexer muito bem com o celular que você consegue também utilizar um telégrafo. Um pode ser a evolução do outro, porém são diferentes. Uma coisa é fato: cada geração tem mais intimidade com aquilo que lhe é contemporâneo, mas nada tem a ver com o fato de ser mais inteligente que a outra. São habilidades diferentes e desenvolvidas de acordo com cada necessidade.

Senti-me provocado em escrever sobre esse assunto também pela minha experiência com crianças e adolescentes na escola em que trabalho. A percepção de que é um grande equívoco afirmar que a geração de agora tem muita habilidade com tecnologia veio a partir da observação das dificuldades apresentadas por jovens ao lidarem com tarefas simples em um simples computador, como gravar um CD, copiar um arquivo de uma pasta para a outra, anexar uma imagem no e-mail e formatar um texto, por exemplo. Mas claro, assim como muitos apresentam dificuldades, outros também desenvolvem uma destreza impecável. Portanto, afirmar que a intimidade com a tecnologia seja algo inerente à geração atual é um tanto perigoso.

No entanto, se por um lado descarto a intimidade com a tecnologia, por outro lado ouso afirmar que a real habilidade dessa nova geração é se comunicar. Raramente vejo um jovem com dificuldades em transmitir uma informação para outro, pois ele consegue, com muita facilidade, tirar proveito das especificidades de cada meio – seja ele um celular, tablets ou computador; ou ainda uma plataforma de comunicação, como redes sociais, blogs, sms e afins.

Para finalizar, volto ao início desse texto e deixo claro que não é necessário e nem saudável, no que diz respeito às brincadeiras de criança, substituir as inúmeras possiblidades de brinquedos e atividades lúdicas pelos sedutores apetrechos tecnológicos dos pais. Calma! Deixe seu filho desenhar com giz de cera, montar com blocos de montar e armar cabanas com lençol nos sofás da sala, pois, querendo ou não, ele provavelmente passará muitos anos de sua vida com experiências mediadas por uma tela.

Vinícius Soares Pinto