“Que há de mais bonito

No ingrato mundo?”

Não hesito;

Responderei:

“De mais bonito

Não sei dizer. Mas de mais triste,

- De mais triste é uma mulher grávida. Qualquer mulher grávida.”

(Trecho da poesia Entrevista, de Manuel Bandeira)

A leitura dos jornais diários, desde sexta-feira, 14 de dezembro, aponta para uma questão que muito nos interessa: de que modo a educação pode humanizar? O assassinato de  26 pessoas inocentes, para além do sensacionalismo midiático, nos põe a pensar as relações sociais, a busca por reconhecimento, a atmosfera de irrealidade presente no mundo contemporâneo que vive e respira a constante sensação da “guerra de todos contra todos”.

É claro que muitas manifestações de solidariedade acontecem mundo a fora. O ser humano continua dotado de uma bondade que o aproxima dos demais…todavia, as relações sociais coletivas sempre nos passam a sensação de que estamos, a cada dia, mais “individuais”, saídos de uma linha de fábrica comum, mas exemplares únicos de um egoísmos originário. Seres dotados de uma liberdade fundamental que, entre as tantas outras, hoje já não nos serve para nada. Toda a luta pelo reconhecimento da “liberdade” nos anos sessenta e sequentes nos presenteou com uma liberdade que beira ao vazio, à angústia, ao não saber para onde ir…à perda dos referências. E que o leitor não enxergue nas palavras acima e seguintes um saudosismo ao passado, um desejo de retorno à moralidade objetiva e impositiva. Realmente, hoje, ao menos teoricamente, as pessoas têm a liberdade nas mãos. Podem optar pelo caminho a ser seguido. Podem crer na maneira que mais lhes parecer correta. Agir por caminhos originais…Mas, que fizemos com isso?

Basta sairmos às ruas para percebemos que somos “exemplares” únicos de uma massificação horrenda, mais impositiva que uma ditadura militar, pois nos roubaram – e ainda não percebemos – a capacidade de sensibilizarmo-nos com tudo o que nos cerca, inclusive as pessoas. Basta vestirmos a roupagem do doente, do deficiente, do idoso, da mulher grávida e tomarmos um ônibus na Curitiba “ideal” dos horários de pico. Ai sim, perceberemos o quão frágil nós somos. Não por que essas condições são de “fragilidade”, mas porque viveremos na pele o que é um ser humano não é reconhecido na sua dignidade. O descaso e a preocupação com os milhões de problemas pessoais que nos assolam semanalmente nos fazem chegar à condição selvagem de uma seleção natural e de um “extermínio” dos mais fracos pelos mais fortes, dos “problemas maiores pelos menores”. A lógica: “por que darei o meu assento para a moça grávida? Foi ela que quis engravidar!! Eu, cá com os meus botões, permanecerei sentado e perderei, propositalmente, o meu olhar em um horizonte catastrófico. Enquanto tenho forças, faço o outro sofrer. Sei que um dia chegará a minha vez, mas gozo enquanto posso”.

Teoricamente, sabemos que esse tipo de lógica não pode dar conta da vida em comunidade, pois não se chega a uma coletividade com uma soma de individualidades. A soma de indivíduos gera uma massa amorfa de sujeitos totalmente voltados para si. É sociedade de massa, como outrora muito se falava.  Resgato no tempo as várias leituras da literatura de memória, literatura de resistência à indiferença humana. Primo Levi é um dos exemplos. Sobrevivente de Auschwitz e dos campos de extermínio, dedicou a vida a narrar o que ele julgava um tanto “inenarrável”: a capacidade autodestrutiva da humanidade e a experiência de  ser destituído de todos os direitos, inclusive o de morte. Naquela situação, nem a morte poderia ser considerada “do indivíduo”, pois a morte em “série” não dava espaço ao rito, ao luto… Seres humanos eram “exterminados” e acresciam mais um número à estatística. Números, apenas cifras. Eis o grande paradoxo de uma sociedade de indivíduos: em um agrupamento de indivíduos que possuem em comum apenas o fato de serem “individuais”, a própria ideia de “individualidade” perde a sua raison d´étre. Já não há mais sentido em ser “único” se é apenas isso que somos. A dinâmica do reconhecimento, do ser outramente, como nos diria Lévinas, faz parte da vida-com os outros. Esse hífen é proposital para compor uma outra forma de ser, o ser-com. Somos seres humanos porque, diariamente, um outro reconhece a nossa identidade. Isso não é teoria! É sabedoria prática, vivida há milênios por todos aqueles que nos precederam. Sem querer abrir espaços para profecias inexistentes, todas as vezes que a humanidade esqueceu-se da sua “humanidade”, as tragédias aconteceram e o “sono da razão produziu monstros” inimagináveis.

A monstruosidade da tragédia ocorrida na América do Norte abre dois caminhos para pensarmos a realidade local: que tipo de sociedade pode nutrir e criar pessoas que produzem barbáries tão sangrentas? De que modo, a partir da leitura desse massacre, poderemos ler os extermínios silenciosos que se descortinam diariamente à nossa frente? Sobre a primeira questão, não devemos pensar que isso foi fruto da sociedade estadunidenses. O contexto hodierno, macro e micro, nos aponta vários exemplos: Realengo, 07-04-12, Rio de Janeiro – matou doze crianças e feriu mais 10;  Noruega, julho de 2011, 77 vítimas… e as tantas guerras, atendados, situações de miserabilidade e desumanização que recheiam o imaginário simbólico de todos nós.

A segunda questão irrompe de modo emblemático e de difícil apreensão, pois tem seus fundamentos na base da estrutura social constituída pelo sistema político financeiro contemporâneo – uso o termo “político financeiro” simplesmente por compreender que, hoje, os interesses políticos se vinculam diretamente com os interesses financeiros. A sociedade da livre competição não pode ver no outro um igual, mas um oponente “sempre em combate”. Nesse plano, não há uma existência do “poder” que se dá entre os homens, compartilhado, narrado, discutido e identificado na forma de jogo de forças e como modo de ação dos sujeitos livres, mas reconhecidamente participantes de uma comunidade de sentido. O que temos é o “poderio”, a tirania, o rompimento com a dinâmica dos “poderes” e o nascimento de um Poder único, manipulador, hipócrita. Uma leitura atenta à realidade nos fará reconhecer os “extermínios silenciosos” que gritam aos nossos ouvidos: do mendigo, do doente, do miserável…enfim, de todos aqueles que não se “enquadram” nos sistemas normatizadores empunhados como bandeiras pelos “cidadãos de bem”. Como educadores, não podemos ficar alheios à dor das famílias estadunidenses que perderam os seus filhos. Ao mesmo tempo, esse fato abre os nossos olhos para a percepção dos tempos “sombrios” em que vivemos. Momento histórico “de fronteira” porque a todo momento somos bombardeados pela ideia de “felicidade”, de “satisfação”, de que o mundo nunca esteve tão bom como hoje, mas, na prática, vivemos a sociedade do medo, da ignorância, da informação polarizada, da verdade dos grandes grupos, do consumo da vida de pessoas inocentes. Somos habitantes da Caverna de Platão, trocando a nossa vida pela dinâmica do medo e da solidão. A educação ainda é espaço privilegiado para pontuarmos um “outro mundo possível”.

Às portas de 2013, despeço-me dos amigos leitores que nos acompanharam durante esse ano. Nada de promessas impossíveis: deixarei de… começarei a… serei melhor em… cuidarei mais das… Apenas a vida: compartilhada, sofrida, poética em todas as suas manifestações.

Mayco Delavy