Paulo Venturelli no Paiol Literário / Foto: Matheus Dias

Líquidos, a conversa e o suor fluíam naquela mesa de bar no setor histórico de Curitiba. As cadeiras eram apanhadas das que sobravam de outras mesas e logo estávamos em sete, dois geógrafos, um psicólogo, um filósofo devidamente acompanhado, e dois literatos. Um deles era o próprio motivo que nos levara a esse encantro (assim mesmo, mesclando encontro e encanto): o escritor e professor Paulo Venturelli lançava de uma só vez dois livros naquela noite quente (ares muito mais de Brusque e da Jaraguá do infante Paulo do que de Curitiba) – Meu pai, um romance e Histórias sem fôlego, contos. Não bastassem, ainda guardou fôlego para poucos dias depois estrear o terceiro livro em uma semana, Visita à baleia, para os jovens leitores.

Capas dos livros: Meu pai, Histórias sem fôlego e Visita à baleia.

Primeiramente deixa que eu confesse que se as conversas bordadas naquela mesa de bar fossem músicas, seria o próprio Clube da Esquina dos inigualáveis mineiros magnetizados (ou wagnertisados?) e iluminados pelo Milton. No documentário musical A Sede do Peixe alguns minutos de parceria, compromisso com a eternidade por meio da música, são deliciosamente apreciados numa cena em que os sexagenários (ou mais) integrantes do atemporal clube dessa esquina, certamente o mais rico e melodioso do planeta, se reúnem em torno de uma mesa e relembram e recantam diversas de suas obras. Mas, por que a comparação? É que o papo estava encarnado de revivida saudade (saudade não se mata, se amaina e ela depois revive, com novo gás) e de muita harmonia. Além do que Milton e o Clube da Esquina voltarão a aparecer mais adiante e amalgamados a Paulo Venturelli e aos que gravitaram em torno dele por volta dos idos de setenta e nove e oitenta.

Ocorre que o Venturelli naquela mormacenta quinta que arrastava os curitibanos aos botecos a molharem suas goelas com o mais gelado chopp, o querido guru Venturelli era o “Velho Paulo de Guerra” que conhecêramos há pouco mais de trinta anos. Enchia a boca para tanto falar de Mia Couto como para nos sugerir novos autores, como o angolano Ondjaki – e deixe-me saudar a literatura de língua portuguesa e salve duas vezes a África! Extravasava entusiasmo ao lembrar de suas aulas – muito mais do que aulas, os cinquenta minutos se multiplicavam incontáveis vezes a ponto de se eternizarem em nossas mentes, afortunados que fomos naquele tempo por estarmos nas carteiras e sermos seus apaixonados alunos, como agora, estarmos do outro lado da mesa de bar rememorando situações que emanavam de sua lembrançalma de mestre.

E é um desses momentos que relato de modo a compartilhar o quão revolucionário pode ser o espaço e o tempo da sala de aula. As lembranças como fita de 8 mm em celuloide se desenrolam agora mais facilmente, posto que fora requentada – e, pasmem, com mais sabor! – em meio às conversas daquela noite. Engato a fita no projetor, apago a luz, lá vai, 5, 4, Kodak, 3, 2, 1…

Venturelli entra na sala de aula numa turma do segundo ano (científico!) e determina: Empurrem as carteiras para as paredes, amontoem-nas se necessário. O miolo da sala ficou vazio, exibindo os gastos tacos de madeira. Enquanto ajeitava a vitrola – alguém ainda lembra ou sabe que bicho é esse? –solicitava a todos: deitem no chão, na medida do possível, fechem os olhos, abram os ouvidos.

O disco começou a deslizar sob os arranhões da agulha, deixando chiar, soar a pulsação do coração vinil. O disco, embora na época ainda não soubéssemos, posto que fazia pouco tempo que havia sido lançado, era um senhor disco! Obra prima, divisor de águas da Música Popular Brasileira: simplesmente o Clube da Esquina nº 2, síntese poética e política, inteligentemente, sutilmente e singelamente representativo do clamor do povo brasileiro em meio a um regime ditatorial.

Capa do disco Clube da Esquina 2

Sigo as orientações do admirado professor, fecho os olhos ao mesmo tempo em que se abrem os acordes de Léo. Dolorosa, angustiosa, sofrida, a melodia enchia os ares da sala de aula. Súbito, a música estanca. Alívio, ufa! Eis que entra magistral desde o início, uma música que é em si o todo, Maria, Maria.

Arrebatadora, a letra e a melodia que é “um dom, uma certa magia que nos alerta” contrasta, propõe o contraponto da música que propositalmente a antecedeu. Finalizada a audição e a viagem, a orientação era: Despertem, levantem-se, desenhem ou escrevam numa folha de papel o que vocês estão sentindo.

Numa época em que os gramaticomaníacos puxavam o terço das orações subordinadas da língua formal, essa forma de mostrar as mil possibilidades da língua, a versatilidade da arte e da comunicação, era um esculhambar pedagógico. Ou, mais precisamente, um remexer nas concepções pedagógicas até então sedimentadas (ainda bem que ao longo do processo de sedimentação, as areias estão apenas acomodadas, ajustadas umas às outras, demoram muito até se cimentarem, por obra e arte da sílica).

Daí a começar a pipocar contos, poesias, ilustrações psicodélicas, pela sala de aula, trocadas feito bilhetinhos entre os colegas, foi uma questão de dias, apenas.

De volta ao presente, súbito, Paulo apoiou seus óculos na ponta do nariz, nos olhou, aos três alunos de mil novecentos e oitenta, e disparou: “Era da turma de vocês aquele aluno que desmaiava cada vez que eu começava a contar certas coisas…?”

E era mesmo. Completamos a frase meio que juntos, como um desembrulhar de presente a muitas mãos: como o que acontecia na Nicarágua e em El Salvador no final dos anos 70, especialmente os métodos de tortura aplicados pelo exército de seus governos militares”.  Lembramos que, na primeira vez, o desmaio demorou um pouco a acontecer. O rapaz deve ter torcido seus nervos e arejado o estômago até onde aguentara. Tivera, naquela ocasião, alguém piscado os olhos, ao menos para se distrair um pouco, desviar o mínimo que fosse a atenção da narrativa de Venturelli, para perceber a alvura absoluta como que se maquiara o estimado colega, jovem e sensível como nós, teria por certo mudado o curso da história – ou, do desmaio, no caso. Mas não, não tínhamos tempo para deixar escapar uma palavra disparada pelo professor das barricadas, um erguer de suas sobrancelhas, uma dobra enfezada de sua testa, afinal “o arame incandescente, a tenaz esfomeada , os fios elétricos descascados…”, tudo isso impressionava. Pois, segundos depois, lenta e inexoravelmente o colega desabava para o lado direito. Menos mal, tombara no piso do corredor, no vão entre as carteiras, livre de suas pontas ameaçadoras (e torturantes).

Acontece que notícias do front, não as recebíamos pela mídia. A imprensa não podia, e nem sei se queria, divulgar, aliada com o estado como estava. Notícias da guerra civil latino-americana, só em boca pequena, nos círculos fechados, “grupelhos de comunistas”, muito embora o Pasquim recomeçasse a circular em algumas bancas, por conta do fim de alguns atos institucionais caneteados pelos generais de plantão.

Semanas depois, a segunda vez: noutra aula, o mesmo garoto abraçava o chão mal saíram as primeiras palavras do professor que nos atualizava sobre a bruta realidade da América Central. A terceira vez…, essa não houve! O menino pedira para sair um pouco da sala de aula, tomar um ar, beber uma água…, enfim, não estar presente por breves minutos. Sensato, sem dúvida.

Dessas coisas se falaram naquela noite. Memória, gargalhadas e palavras escorridas e diluídas em meio ao suor, um tanto aplacado pelos goles de suco de cevada.

Francisco Rehme, o Chicho

PS. Voltaremos em dois mil e treze, com outras palavras. Abraços da turma do blog e uma grande virada de ano!