Não muito raro, eu gosto de ficar pescando, na tranquilidade do mar ou de um rio, por horas. Ótimo, todos pensam, desde que eu leve alguns exemplares para casa. Uns robalos, bagres, traíras, baiacus ou até mesmo siris. Não raro, isso nunca acontece. Aí cabe a seguinte pergunta: por que raios você vai pescar se não consegue trazer nem um mísero peixe? Ou, melhor, se não está dando nada, por que insistir?

Ora, a resposta é simples: pescar não é o simples ato de se jogar um anzol e uma linha na água. Há todo um processo. Compra-se iscas, anzóis, pesos, linhas, bebidas, comida. Leva-se também cadeiras, os molinetes, carretilhas. Há ainda outra coisa, considerada o dom inato da arte de pescar: a paciência.

É a paciência que faz com que nós, pescadores, esperemos até o último minuto pelo peixe, mesmo quando o temporal está anunciado ou mães, namoradas e esposas já estão nos procurando. É a esperança que o robalo de 15 quilos pule em nosso anzol. Que passemos dias sob a chuva, o sol e o luar lutando com o marlim azul do velho Santiago do Hemingway.

Mas esse momento nunca chega. Nem mesmo o baiacu, peixe odiado por ter uns dentões que sempre cortam a linha e até mesmo o anzol dos pescadores. Aliás, falando em baiacu, logo que alguém tira um exemplar desse da água, a primeira coisa a se fazer é soltar ele. Mas sempre tem um espertinho que diz, como se todos não soubessem, que se souber limpar o peixe é uma boa carne para se comer. O problema dele é: há uma toxina, uma bolsa de fel, que contém tetrodotoxina,  uma substância que é até é 100 vezes mais perigosa que cianureto de potássio. Caso o peixe não seja limpo da maneira correta, há uma grande possibilidade de óbito a quem o consumir. Acontece que eu nunca vi alguém hábil o suficiente para limpar um baiacu. Todos os que o pescaram, jogaram ele de volta para o mar.

O conceito de arte aqui é visto sob um aspecto que talvez esteja mais aliado ao senso comum. Coloco o artista aqui como alguém, no mínimo, excêntrico. O homem ou a mulher que pesca deve ser, antes de mais nada, alguém excêntrico. Alguém que negue os valores de rapidez e o caos da vida urbana, em que os dias não passam, mas se atropelam. Ali, na beira do rio, a hora até passa, mas é num ritmo diferente.

Diego Zerwes

É publicitário (UP) e Especialista em Literatura Brasileira e História Nacional (UTFPR). Trabalha na Comunicação do Colégio Medianeira. É tradutor (diletante) da vasta obra musical de Leonard Cohen, publicada periodicamente no Traduzindo Leonard Cohen.
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