Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau a pique e sapê
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais

Zé Rodrix e Tavito

Meia dúzia de LPs indispensáveis, já gastos de tanto atritar com a agulha do toca-discos, numa reunião de 5 ou 6 amigos do peito e um repertório de leitura armazenado para alimentar a conversa: das notícias do momento às leituras poéticas, filosóficas ou políticas que sustentavam ideias e davam calor às conversas, arraigando convicções, concordâncias ou discordâncias. Esse era o estilo de boa parte da geração de 60/70, para “ficar do tamanho da paz”: as relações afetivas, as canções preferidas e as páginas cheias de palavras contadeiras de histórias.

Independente do tempo em que se vive, as lembranças de cada pedaço de vivência são impregnadas por trilhas sonoras, palavras e contatos físicos que guardam um potencial de fazer estremecer o corpo e a alma. A presença humana materializada em carne e osso, calor e contato; as histórias recolhidas, imaginadas, sonhadas, impossíveis ou não; e a trilha sonora, que faz de cada movimento um passo de dança, capaz de movimentar a vida na coreografia da imaginação, que também tece realidade e se deixa tecer por ela.

Ah… a imaginação. “As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas. Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta ser vivida: também precisa ser sonhada.” Assim o poeta Quintana instiga o leitor, em “Lili inventa o mundo”, a reinventar as coisas simples e cotidianas pelos caminhos da imaginação e do sonho. E assim o escritor deixa sua marca sobre o mundo, pela sua caligrafia, pela máquina de escrever ou pelo computador, e que vai ser editada para chegar ao leitor na forma de um livro, material ou virtual. A provocação das palavras não depende diretamente da mídia em que se publica o texto, mas a proximidade com o ser vivo e palpitante do escritor no momento da escrita pode potencializar a sensação do leitor.

Há uns dois meses, vendo a exposição de Poty Lazarotto, no MON, me chamou muito a atenção a presença de manuscritos, bilhetinhos que ele escrevia à sua amada, marcando vários momentos. Algo do tipo “volto em duas horas”, acompanhado de um desenho carinhoso. Depois disso passei a olhar com maior atenção, nas outras exposições, os rascunhos expostos das obras e me pus a pensar nos registros que temos hoje, que, se por um lado são efêmeros demais, por outro facilitam a nossa vida. Mas os nossos rastros podem desaparecer numa pane de sistemas e redes. Não dependem mais só de termos a paciência de guardá-los em um baú, que se cobrirá de poeira do tempo, até que um dia alguém resolva abri-lo para estremecer com lembranças ou jogar fora um monte de velharias. Como se pode ver, a emoção não depende da mídia em que se expõe o recado, mas de como ele é recebido. A mulher de Poty poderia ter jogado fora todos os seus bilhetinhos, cheios de amor, assim que eles transmitissem o recado, mas havia algo maior em jogo. Se os recados fossem hoje, como seriam? Via torpedo? Redes sociais? E.mail? Isso diminuiria a intensidade das palavras? E os rastros humanos? Nada de baús, mas uma memória virtual.

Quando encontramos, por exemplo, um caderno de receitas antigo de nossas avós, com sua caligrafia, o tremor das mãos, a intensidade da escrita, parece que um pouco delas, o cheiro da sua comida, o calor de suas mãos, se reavivam em nossa memória. Mesmo facilitando a chegada dos livros às nossas mãos, a imprensa aboliu em parte esse contato. Porém, quando pegamos um livro antigo, em uma biblioteca, podemos imaginar o quanto de presença física ele pode representar, pois tantas mãos já deixaram seu calor ali, naquelas páginas, e quantas emoções diferentes já brotaram daquelas mesmas palavras, que para cada um reverberam de forma diversa, combinada com suas histórias de vida. Tantos sentidos já ganharam as lutas políticas no Antonio Conselheiro de Euclides da Cunha; outras tantas questões sociais se viram refletidas na família retirante de Fabiano e Sinhá Vitória, na criação de Graciliano Ramos e no embate da sua criação com a realidade brasileira de vários momentos. Brás Cubas, personagem machadiano, no seu relato póstumo desprendido das obrigações sociais e das culpas, continua espelhando a hipocrisia humana, seus ímpetos e interesses calculados ou desavisados, pilhando-se os leitores de diferentes épocas nos seus julgamentos de si mesmo e da personagem. Ou a angústia de Riobaldo ao se deparar com seu amor por Diadorim, no universo rude do sertanejo roseano.

As leituras, assim como a música, têm o poder de despertar o novo e o antigo, incomodando ou alentando a alma nas lembranças ou em novas sensações e reflexões, novas leituras, ainda que do mesmo objeto. O poder da música em marcar momentos é tão intenso, que chega a despertar outros sentidos, como lembranças que guardam cheiros e cores, momentos com amigos ou momentos de leitura que foram impregnados por melodias. Mesmo sendo muito particular a vivência da música e da literatura, a presença humana marca a dimensão da troca, do compartilhamento de experiências pessoais. Não basta apenas sabermos da existência das outras pessoas, mas é preciso cruzar com elas, trocar essas emoções pessoais, aí é que está a graça de conviver, viver junto: sentir o contato físico, o abraço, o calor das mãos e das ideias. O calor das emoções e das histórias de vida de outros seres humanos. Talvez por isso a criação humana seja tão necessária, para não se perder de vista esse compartilhamento.

Hoje temos tudo isso ao alcance da mão. Ou até mesmo na palma da mão está a nossa “casa no campo”. O nosso espaço repleto de amigos, discos e livros cabe num celular, num ipad. Mas o abarrotamento dessas três coisas talvez as faça perder o real valor. Tenho tudo ali, para quando eu quiser. Todas as músicas, livros e amigos que a memória virtual suportar, tão ao alcance que o perigo é bastar a sensação de tê-los. Se essas três coisas sucumbirem ao canto da sereia, pelo toque de Midas do mercado, penso que perdem o significado, sejam elas virtuais ou materiais.

O cuidado de não ser tragado pelas mudanças e pela volatilidade dos registros da existência humana é a grande arte de descobrir a cada época o que não se pode perder. Ou seja, o problema não está nas mudanças, mas no que as motiva e na velocidade que ocorrem na atualidade, não nos dando tempo para pensar sobre elas.

Lembrando o filme “Meia noite em Paris”, a nossa idade de ouro sempre parece ser aquela que já passou, e se a alcançássemos a descobriríamos insuficiente para muitos, que suspirariam por épocas ainda anteriores. Não sou daquelas que gostam de choramingar nostalgias e dizer que naquele tempo, sim, era bom. Mas gosto de tentar entender o contexto de cada época e as transformações humanas. O que o ser humano valoriza a cada momento, por que o valoriza e o que isso deixa para o futuro.

Penso que essa dimensão sim é que não pode ser abandonada: o comprometimento entre os seres humanos de diferentes tempos e a compreensão do outro, do presente, do passado e do futuro, afinal é o outro a referência do eu. Sem o outro não há um eu.

Martinha Vieira