Este ano tive a oportunidade de dar várias palestras sobre leitura em Curitiba e no interior do estado (estive em Londrina, Foz, Maringá, Pato Branco, Cornélio Procópio, Palmas). Ou falei sobre a leitura de modo geral, ou sobre a leitura do texto literário ou ainda sobre o futuro do livro, um tema aberto a muitas especulações.

Apesar do nervosismo inicial antes de cada fala, é um trabalho que gosto muito de fazer. Mas vou confessar uma coisa: eu prefiro estar do outro lado, do lado do público, ouvindo as pessoas que admiro.

Aprendi demais com um monte de gente, autores e teóricos especialistas. Muito desse aprendizado – além, é claro, daquilo que leio – eu levo para essas conversas nas quais sou palestrante.

Um assunto, no entanto, sempre ronda os bate-papos em torno da leitura e da literatura e me deixa mal convencido: a tendência a supor uma maior riqueza da literatura em relação ao cinema, por exemplo. Pessoas que entendem muito mais do que eu afirmam que a leitura do literário é mais aberta e ativa do que a leitura de um filme.

Um dos principais argumentos é o de que a literatura não traz a imagem pronta; outro é o de que no cinema nós já recebemos imagens que foram filtradas por alguém, o que é uma espécie de leitura de segunda mão, uma vez que lemos a leitura de um diretor.

Essa é uma lição que eu não consigo aprender. É inegável que existem muitos filmes – e geralmente os campeões de bilheteria – que não nos dão brechas, enfiam imagens novas a cada fração de segundo, sem tempo de respiro para que pensemos sequer em ir ao banheiro, quanto mais em refletir sobre os sentidos simbólicos do que vemos e que deveríamos construir na nossa cabeça atordoada. Ora, mas também existem livros que não nos abrem a cabeça para nada; ao contrário, trancam nosso imaginário em velhos clichês que impedem as fissuras tão salutares em nossa visão consolidada do mundo, da vida.

A boa literatura, de fato, faz com que criemos os nossos protagonistas na cabeça, o nosso cenário, o nosso jeito de entender as movimentações e falas dos personagens. Mas o que considero o bom cinema também faz isso: boa parte do cinema europeu, iraniano, brasileiro, americano (sim, é verdade), argentino, entre muitos outros, consegue uma dimensão reflexiva e um espaço para o espectador estabelecer sentidos que são riquíssimos e altamente complexos. Quando, em 2001 – uma odisseia no espaço, dois hominídeos se digladiam e jogam um osso para cima que, em câmera lenta, vai se transformando em uma sonda espacial, esses poucos segundos de imagens nos fazem ver como o homem é capaz de construir cultura e fazer coisas assustadoras nesse seu ainda tão curto período de existência sobre a Terra (curto, sim, comparado com a idade do planeta).

Pena minha cabeça ser tão ruim (para os livros ela também é), mas lembro de um filme em que, depois de uma série de conflitos, a protagonista aparece bem distante, em um plano abertíssimo, no canto direito da tela e com o mar ao fundo. A cena se limita a mostrá-la atravessando de um lado ao outro da tela. Essa travessia, sem trilha sonora, sem nada, leva muito tempo. Nessas imagens supostamente já dadas pelo diretor, já lidas por ele, existem inúmeras brechas de sentido esperando para ser completadas pelo público. Em última instância, um livro de literatura também já é uma leitura recortada que o autor faz do mundo caótico e inapreensível como um todo.

Se não quisermos um filtro e nenhuma leitura mediada ou já dada, peguemos um livro em branco ou uma tela preta e fiquemos fazendo a leitura que quisermos.

Sou da literatura e, para mim, ela é a mais potentes das artes (seguido do cinema e das artes visuais). Mas isso funciona para mim, é o modo como cada uma delas bate em mim. Não consigo entender isso como uma regra geral.

 Não sei se interessa, mas em um próximo post estou tentado a falar por que, para mim, a literatura bate tão em cheio.

Cezar Tridapalli