Foto de Marco André Lima

Se é para responder rapidinho, sem rodeios a pergunta acima, então vá lá: … é o meteorologista! Esse, de fato, é um destemido herói-cientista que não tem medo de colocar sua palavra, às vezes à viva voz (na rádio), para, poucas horas depois, ser aprovada ou caçoada pelo público leitor ou ouvinte.

Curitiba é um caso à parte. É realmente vivaldiana. Enquanto você ouve e se delicia com a mais famosa sinfonia do compositor italiano, na atmosfera curitibana se manifestam as quatro estações. É um tal de pôr e tirar capa de chuva, japona, passar protetor solar, depois de tudo isso se enrolar no cachecol. Verdade é que tem um certo exagero nisso, bem… nem tanto! Mas, vamos defender Curitiba: a culpa é da sua localização espacial.

A capital paranaense se encontra numa latitude média, ou seja, nem tão perto do Equador e nem tão próximo do Polo Antártico. Desse modo, tanto as massas tropicais, de quentes baforadas, vindas do norte, como as polares, frias, às vezes gélidas, vindas do sul, passam sobre Curitiba. Isso também ocorre com outras importantes cidades brasileiras e em suas regiões, como São Paulo, Florianópolis e Porto Alegre. Certamente, nessas cidades também se brinca (alguns lamentam, outros comemoram) com o fato do tempo mudar tanto e tão rapidamente. Mas, em Curitiba há dois agravantes, em relação às duas outras capitais sulinas: primeiramente, ela está bem mais alta, estendida sobre um planalto. E daí? Bem, aí o ar é mais frio, cerca de quatro graus a menos do que nas praias do Paraná. Segundo detalhe: apesar de não se situar tão longe do oceano, há uma barreira natural – a Serra do Mar – que dificulta a influência oceânica. Assim, há em Curitiba um certo efeito de continentalidade: entre a madrugada e as duas horas da tarde, geralmente a temperatura varia bem mais em Curitiba do que numa cidade à beira-mar.

E no que se baseia o meteorologista para, sem tropeços, pujante, disparar: “Áreas de instabilidade se desenvolvem no período da manhã sobre as regiões oeste, sudoeste e centro-oeste do Paraná e provocam chuvas ocasionais” ?  (www.simepar.br – Acesso em 25-10-2012).

Às vezes, chegamos a cogitar que seu instrumento de trabalho é uma bola de cristal e que até pode estar meio embaçada – ou nebulosa, mais apropriadamente. Mas, não, é apenas presunção de nossa parte. O meteorologista fica boa parte do dia e da noite de olho nos diversos instrumentos do observatório e na tela do computador, analisando as imagens de satélite, decifrando os enigmas das massas de ar: como elas se comportam e para onde se deslocam.

Na imagem acima, por exemplo, as manchas mais claras e densas são grandes formações de nuvens. Embaixo delas está chovendo, pode ter certeza (apesar de que, em termos de meteorologia, nunca é confiável ter tanta certeza). Chove, portanto, no exato momento em que essa imagem foi capturada pelo satélite, no centro-sul da Argentina, numa faixa de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Chove também em algumas porções do Atlântico, afastadas da costa; mas, pensando bem, aí é “chover no molhado”!

As manchas menos claras, pardas, que, na imagem, cobrem quase todo o Paraguai, parte da Cordilheira dos Andes e do noroeste da Argentina e várias porções do sul do Brasil, geralmente correspondem a uma nebulosidade menos espessa e que não necessariamente despejam água sobre os viventes da superfície (entre esses, nós).

Repare naquelas nuvens encaracoladinhas da parte inferior da imagem e que se situam sobre o oceano. Essa forma espiralada revela algo muito interessante e de que a gente não se dá conta: a Terra gira em torno dela mesma, no movimento chamado de rotação, numa velocidade espantosa de 1670 quilômetros por hora!

Em geral, elas indicam as áreas de alta pressão na atmosfera. Nesses locais, que não são fixos, as massas de ar começam a se desenvolver e a partir desses locais elas se deslocam em direção às áreas de baixa pressão (como aquela indicada pela letra B, sobre os Andes, na fronteira entre Argentina, Chile e Bolívia).

E aquela linha arqueada em azul, toda enfeitada de bandeirolas de São João? Observe: está sobre espessas nuvens na parte inferior da imagem, no centro-sul da Argentina. Ela indica que ali ocorre uma “frente”, ou seja, o encontro entre uma massa de ar frio (que vem do extremo sul do continente) e uma massa de ar quente que naquele instante se situa sobre o norte da Argentina, o Uruguai e o sul do Brasil. As “bandeirolas” indicam para que direção se desloca essa massa de ar polar, originária do sul. Ih… perceba que elas apontam para onde nós moramos. Como é que o meteorologista então analisa esse dado?  Provavelmente, ele deduzirá que em alguns dias, essa massa de ar frio estará sobre o Paraná, derrubando a temperatura e provocando chuvas. Ou… talvez, (lembre-se: em meteorologia sempre tem um talvez!) a massa de ar polar seja empurrada para o oceano, ou ainda, perca sua força e se dissipe.

Finalmente, as áreas mais escuras da imagem, como é o caso do norte do Paraná, sul do Mato Grosso do Sul, sul e oeste de São Paulo, indicam que o dia está ensolarado e que, para as próximas horas, ao menos, não deve chover. Bem, isso é, desde que as nuvens não sejam deslocadas para esses locais por ventos apressadinhos. E aí é que está um dos elementos que colocam o meteorologista na lista daqueles que muita gente acha que “se deve ouvir, respeitar a opinião, mas também desconfiar”. É o imponderável, o impreciso, a surpresa, que a atmosfera de nosso planeta e, quem sabe os humores de São Pedro, aprontam. Quer saber de uma coisa, ainda bem que nem tudo é tão previsível e exato. Já pensou que enfadonho saber com exatidão como o tempo vai se comportar? Saber a que horas, minutos e segundos vem a chuva.? Quando é que, com certeza absoluta, vai nevar na serra catarinense? Ah… particularmente, gosto de um pouco de mistério e, principalmente, de deixar a natureza agir por conta dela mesma. E você?

 

Francisco Rehme, o Chicho.