Obra de Lucia Laguna, na 30ª Bienal em São Paulo

Acredito, sinceramente, que todos nós sejamos um poço de ideias. A maioria delas a gente descarta, esquece, algumas a gente divide, conversa sobre, bate papo. E tem algumas que insistem em ser registradas, têm a pretensão de se materializar, ficar pra posteridade, ainda que esta seja breve nos dias de hoje.

Isso mesmo, acho que há ideias que se impõem e enquanto a gente não escreve ficam borboleteando na nossa cabeça.

Essa introdução foi para justificar porque me arrisco, neste post, a falar de arte, assunto com o qual tenho uma relação de espectadora somente. Fui obrigada.

Ocorre que nestas últimas semanas vivi uma experiência com a Arte contemporânea e não saí ilesa. A experiência se deu na visita à Bienal de São Paulo. A Bienal é por si só uma overdose, pois trata-se de uma exposição muito grande, com cerca de 170 artistas nesta edição. O pavilhão é imenso e percorrê-lo num dia só é tarefa tão árdua quanto impactante.

Ao contrário do que se pode imaginar, não saí da Bienal com mais conhecimento do que entrei. Tenho a impressão de que se sai com menos. Menos, porque desconstruí alguns conceitos e certezas que possuía, tendo em vista que minha formação para a leitura da arte é tradicional, logo de valorização e supremacia dos grandes clássicos. Lá entendi o que Zeca Baleiro quis dizer com “desmaterializando a obra de arte no fim do milênio”. A desmaterialização da arte é pra mim o conteúdo principal da Bienal. Isso pode parecer bonito, mas é perturbador porque fica a questão:  a arte desmaterializada ainda é arte?

Mas aí me lembrei da Professora Consuelo Schlichta defendendo que toda arte retrata uma realidade humano – social, concordando, me arrisquei a pensar que em tempos de Modernidade e Vida Líquidas, me apoiando em Bauman, ou a arte se desmaterializa ou perde a relação com a realidade.

Parece, no entanto, tão paradoxal  a ideia de que é desmaterializando-se que a  Arte cumprirá o seu papel. Aliás, qual é  mesmo o papel da Arte?

A Arte contemporânea conquistou o direito de não nos dar respostas. Parece-me verdadeira a ideia de que uma exposição de Arte Contemporânea é um grande pomar no qual se colhem dúvidas, questionamentos, estranhamentos. Muitos deles sobre a própria Arte.

Porém, o que mais me marcou nisso tudo foi que visitando a Bienal me pareceu evidente a necessidade de trabalharmos as linguagens da Arte de forma integrada em nossos currículos, assunto sobre o qual nos debruçamos e que nos dá muito trabalho, já faz algum tempo. Se queremos construir com nossos alunos ferramentas de leitura da arte desta época, a integração das linguagens é vital, pois me parece que a época em que pintura, escultura, teatro, música, dança, dormiam em gavetinhas separadas  já se foi ou tem seus dias contados.

E respondendo a pergunta que eu mesma formulei.  Gosto de pensar que as artes todas servem para mostrar inúmeras e distintas  possibilidades de ver o mundo, ou melhor, as coisas do mundo.

Juliana Heleno