Há alguns anos, noticiaram a vinda de técnicos austríacos à Curitiba com o intuito de avaliar a viabilidade da exploração da água armazenada no karst paranaense. Era, sem dúvida, uma das primeiras vezes, senão a primeira, em que a expressão – que tem a sua versão aportuguesada “Carste” – estava sendo usada fora de um contexto mais acadêmico e restrito ao círculo de espeleólogos, ou seja, dos pesquisadores das cavernas.

Quanto à avaliação, não sei se chegaram a alguma conclusão, muito menos qual foi o resultado, porém, a respeito do karst e de sua improvável paisagem, penso que isso mereça umas palavrinhas.

Se o relevo da superfície terrestre por si só já é uma ótima amostra da caprichosa engenharia divina, o que dizer do relevo modelado em rocha calcária?  Pois é esse mesmo o significado etimológico do vocábulo “karst”. Trata-se de uma expressão originária da antiga Dalmácia, muito tempo depois, Iugoslávia e, por fim, Eslovênia, Croácia e Sérvia. A palavra tem origem eslava e significa algo como “campos em que afloram rochas calcárias”. O relevo sobre o calcário é peculiar, elaborado com toda a paciência e o esmero do tempo geológico, ou seja, ao longo de milhares ou mesmo, milhões de anos.

Formas do relevo cárstico em superfície e no ambiente subterrâneo

E a que(m) se deve tal empenho? Sem dúvida, a um conjunto de fatores combinados entre si. Uma sábia trama da natureza. O calcário e outras rochas afins, como o dolomito e o mármore, são constituídos de carbonatos de cálcio e de outros elementos químicos. As rochas carbonatadas são bastante suscetíveis à ação corrosiva da água acidulada. Ocorre que a água, que se precipita pela chuva, incorpora o dióxido de carbono na atmosfera e quando se infiltra solo adentro. Assim, a água está bem enriquecida de ácido carbônico. O fato é que esse ácido, por mais diluído que esteja em água, no decorrer dos milênios dissolve a rocha, atacando os seus pontos mais frágeis: as suas fissuras ou diáclases e os planos de estratificação da rocha, onde as camadas se sobrepõem.

Assim, formam-se condutos verticais e horizontais, No encontro desses condutos, com o tempo, formam-se amplos salões. Passa-se mais um tempo (não o humano, mas o geológico) e o “oco” do salão aos poucos se preenche de formações minerais que crescem – verdadeiramente crescem – no interior absolutamente escuro do mundo subterrâneo. São os espeleotemas, as deposições minerais originárias do teto, ou que se formam a partir das paredes, ou ainda do chão. Dentre esses, são mais conhecidas as estalactites, que pendem, às vezes enfileiradas, outras vezes agrupadas, do teto da caverna e as estalagmites, que se elevam do solo a partir da gota que saiu da estalactite e estalou no chão, espraiando a água e criando uma fina película calcítica que, aos poucos, milímetro por ano, se agrega a outra e mais outra. Novamente é preciso toda a paciência que só o tempo sabe ter para vê-las crescidas, mais de metro de extensão, toneladas de mineral da mais pura calcita. Quando estalactites e estalagmites se juntam em seu contínuo crescimento, eis que se formam as colunas. Mas, há mais de noventa espeleotemas. Não tem como se enjoar. Uma variedade que inclui delicadas estruturas filiformes a imensas e pesadas esculturas calcárias.

O carste subterrâneo é, de fato, intrigante e um constante convite para a exploração. Some-se à sua beleza ornamental o mistério proporcionado pela abertura da rocha e pela  escuridão, que se rompe parcialmente com o facho luminoso das lanternas, pronto: tem-se a receita completa de uma inesquecível e recompensadora aventura.

Há ainda as formas cársticas de superfície. É o exocarste, na linguagem dos geomorfólogos. Os vales são surpreendentes: podem ser estreitos e profundos, verdadeiras gargantas, recobertas pela mata, como no Vale do Rocha, no Parque das Lauráceas, em Adrianópolis.  Outras tantas vezes, os vales do exocarste são cegos, subitamente acabam ante algum morro ou escarpa. E para onde flui toda aquela água conduzida pela calha do fundo do vale? Ora…some! Exatamente isso: por um sumidouro a água se infiltra e aí, tenha certeza, há cavernas logo abaixo da superfície.  As dolinas são outras formações bem interessantes na paisagem do carste. São depressões circulares ou levemente ovaladas, como crateras. Elas se formam pela dissolução da rocha calcária e sofrem um colapso. A superfície afunda, desaba, às vezes dezenas de metros. Muitas vezes, é pelo fundo de uma dolina que se acessam as galerias subterrâneas. No entanto, é sempre uma atividade arriscada e que, geralmente, exige o uso de técnicas de escalada, como o rapel. Por fim, há conjuntos de rochas  pontiagudas, como lanças, que afloram, atingindo até alguns metros de altura, como ocorre no norte da ilha de Madagascar. São os lapiás, outras preciosidades só existentes no carste.

Para quem quer conhecer mais sobre o cenário cárstico paranaense vão aí dois endereços em que serão bem atendidos: o GEEP- Açungui (Grupo de Estudos Espeleológicos do Paraná, sediado em Curitiba e o GUPE (Grupo Universitário de Pesquisa Espeleológica), da turma da UEPG, de Ponta Grossa: http://pt-br.facebook.com/geep.acungui e http://www.gupecaves.com.br

Chicho