Por que, em 1984, havia multidões nas ruas gritando por eleições diretas e hoje há multidões dando de ombros para isso tudo?

Claro, o contexto era outro. Em 1984, o Brasil completava vinte anos sob a ditadura militar, sem eleições diretas em quase todas as instâncias. Mas será que só podemos dar valor à nossa liberdade de escolher nossos governantes quando sentimos na carne a falta dela? Por isso o passado não pode ser esquecido jamais, para que não cometamos o erro de menosprezar o nosso direito de votar, por causa de políticos que não merecem o nosso voto.

Há vários dias, nesse mesmo espaço, Cezar nos levou a uma reflexão sobre a peça publicitária que se tornou a campanha da maioria dos políticos, e o problema aqui não é só dos políticos que levantam corporativas e falsas bandeiras, mas também dos publicitários que são contratados para vender belas mentiras. Então, parece que o buraco é mais embaixo. Parafraseando Shakespeare, há mais problemas entre nós e a política do que supõe a nossa vã filosofia.

Não faço aqui uma defesa dos políticos, mas parece que o problema também é do eleitor, que afasta a política da sua vida, abrindo a gaveta só na hora de votar. Dessa forma abre mão da sua compreensão maior e necessária sobre a política e tudo que a envolve, reduzindo-se à condição apenas de eleitor e alvo dos políticos mal intencionados.  É preciso entender o que é um processo democrático, e que ele não se reduz ao voto, ele se consolida com o voto.

Mas para isso deveria haver a discussão ampla da sociedade no sentido de reconhecer quais são seus problemas fundamentais, não os tratando corporativamente, mas sim como coletividade de fato. Por exemplo, a corrupção, que não é um problema apenas dos políticos, não nasceu com eles, mas sim num conjunto de condutas sociais a que tanto o político, como o publicitário que é contratado pelo político para mentir, como o advogado que é contratado para defender o mentiroso, etc., etc., etc., foram submetidos na sua educação já desde tenra infância.

A corrupção começa nos pequenos logros que parecem não ter importância, como furar uma fila, mentir uma indisposição para fazer uma prova em outro dia, colar numa prova ou omitir uma informação para tirar proveito de uma situação, e se estende ao suborno, à busca de vantagens pessoais a partir de cargos públicos ou de fama, do tipo “você sabe com quem está falando?”, e vai crescendo em abrangência social até chegar à “polis”, à política, à administração da coisa pública.

O foco da educação na política não se restringe à política partidária, mas é uma necessidade para a compreensão da sua relação com todas as instâncias da vida. Como escreveu Bertold Brecht, “o analfabeto político estufa o peito, dizendo que odeia política”, mas não sabe que “o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decisões políticas” e que “da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e o lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”

Ou pior, quando sabemos disso e continuamos ignorando a política, e na hora de votar somos individualistas ou corporativos, a partir de bandeiras levantadas por candidatos para atingir determinado público. Por exemplo, por quantos anos um certo político sustentou-se no cargo como o criador do vale transporte? Tivemos um presidente da república “caçador de marajás” e que terminou cassado como o pior deles. O corporativismo e o individualismo favorecem bandeiras mentirosas, egoístas, movidas por interesses localizados. E o perigo maior é quando isso se torna “normal” no processo eleitoral. Pior ainda quando a corrupção se torna algo normal em nosso cotidiano, e só discordamos da corrupção dos políticos, quando chegam a ser divulgadas, porque não “sou eu que estou lá roubando”. Se “eu” que estivesse lá metendo a mão no dinheiro público daí não seria corrupção.

Não é possível mais ignorarmos a política, pois ela está tecida junto com as nossas atitudes e tem implicações diretas sobre todos os campos da nossa vida. Não é possível mais a escola ignorar a política, muito menos a educação familiar. Não é possível mais os meios de comunicação continuarem com esse trabalho sujo para desencantar a sociedade quanto à política e domesticar consumidores estimulando uma postura individualista, execrando alguns setores da sociedade e absolvendo outros, omitindo atos corruptos comprovados de alguns políticos porque são seus amiguinhos e dilatando as falhas dos seus inimigos ideológicos.

Darcy Ribeiro dizia que os povos latinoamericanos se dividem entre os indignados e os resignados. É preciso entender que indignação não é eu me revoltar com o roubo de um político porque não fui eu que saí ganhando, mas é preciso recuperar o sentido de coletividade para compreender a perda que significa para toda uma nação quando um político ou quando qualquer um de nós se corrompe. Indignar-se significa não aceitar certos modelos políticos e econômicos que beneficiam uma minoria com o sacrifício da maioria.

Esse tipo de compreensão que nos torna capazes de indignação nasce no conhecimento, que só se constrói de fato numa biologia capaz de fazer compreender que as formas de vida estão interligadas e o que afeta uma delas afeta o todo; num ensino de história capaz de fazer pensar sobre as implicações sociais, culturais e políticas entre passado, presente e futuro; de uma matemática que leve à percepção de o quanto muitos perdem enquanto poucos ganham muito; de um ensino de língua que não massacre a expressão viva dos seus falantes para o prestígio da fala de poucos; da educação física que leve o indivíduo à consciência corporal e ambiental em harmonia; da geografia capaz de perceber as políticas econômicas desenhando as divisões territoriais; da arte como compreensão da rica diversidade cultural e subjetividade humana e não como privilégio de poucos.

Tudo isso pode parecer um discurso muito distante das eleições que vão ocorrer no próximo domingo, mas a organização e administração da coisa pública, o interesse maior pelo mais próximo de nós, é o olhar para a nossa cidade e seus problemas coletivos, que estão interligados em questões históricas, geográficas, culturais. Quem não os conhece e, muito menos as suas causas, vota corporativamente ou de forma individualista. Enquanto os eleitores votarem sem senso de coletividade, por interesses pessoais ou por fascínios inexplicáveis por determinadas figuras públicas, estaremos retrocedendo quase ao nível do voto vendido, do voto de cabresto, do coronelismo. Vote nesse ou naquele, ou anule o voto, mas que a sua análise, para chegar a essa conclusão, parta da vida coletiva, da percepção das interligações entre os problemas e sua escala de valores para os habitantes da sua cidade e o que vai realmente afetar a essência da “polis”.

Falar é fácil, prometer é fácil. Já, comprometer-se com o que se fala ou que se promete é que é a grande questão. E isso não é só para os políticos. É preciso avançar na compreensão da democracia e da política, educando as crianças não só para a construção e o embasamento do próprio discurso, mas para o compromisso com este. A criança que é educada sem compromisso com a própria palavra será, no futuro, o médico que se vende para os grandes laboratórios de medicamentos e suas máfias, o policial que faz pacto com o traficante, o empresário que explora em nome do lucro cada vez maior, o publicitário que vende a mentira, o professor que repete um conteúdo sem significado social, o fabricante de alimentos que envenena aos poucos as crianças com produtos super coloridos e fast foods com brinquedos para escoar suas gorduras trans e seus hambúrgueres sintéticos, o agricultor que degrada o meio e a vida com agrotóxicos, e o político que vai prometer e sem o menor escrúpulo não vai cumprir.

E o pior de tudo, os pais, as escolas e os meios de comunicação que vão repetir tudo isso para os pequenos, prolongando por mais uma geração que política é para os políticos, que entender como a vida acontece é coisa para os biólogos e médicos, que entender a subjetividade humana é coisa de psicanalista, que o raciocínio é para os matemáticos. Somos seres de alta complexidade, e a política não é um apêndice nojento na vida humana que precise ser extirpado. Senão, daqui a pouco voltamos a ser regulados por ditadores e sem direito a voto e, parafraseando Eduardo Alves da Costa, em “No caminho com Maiakóvski”, não vamos dizer nada.

Com indignação,

Martinha Vieira