Angeli é o autor da tira acima.

É época de campanhas políticas. E você acha que o eleitor está confuso?

Pois prepare-se para fazer de seu candidato um vencedor.

Primeiro, vamos pensar em palavras ou expressões que rimam:

Coração, paixão, transformação / Valor, amor, trabalhador / Cidade, felicidade / Compromisso, conte com isso / Amanhecer, nascer, acontecer

Agora vamos juntar outras palavras para formar umas frases, uns tercetos ou quadrinhas. Exemplos:

(Cole aqui o nome do candidato) vai fazer pela cidade / aquilo que nenhum outro fez / (cole aqui o nome da cidade) é só felicidade / agora chegou a nossa vez.

Ou

(_______________) é homem de valor / Honesto, gentil, trabalhador / É (_______________) tratada com amor.

Ou

É (_______________), é transformação / Um novo sol, um novo amanhecer / Ele é inteligente e usa o coração / É (_______________) que faz acontecer.

Note que aos poucos a coisa vai ficando mais complexa: pegue os versos acima e acrescente um ritmo. Ele pode ser gospel, sertanejo, forró. Alguma coisa da moda, de boa aderência aos ouvidos ávidos por tortura. Uma balada lenta com uma voz em falsete e um fundinho de teclado também pode dar jogo. Um coro de vozes felizes é mais que recomendável.

De posse dessas prováveis obras de arte, saia distribuindo os jingles aos vários candidatos. Ele é do Partido Comunista? Ele é do Partido Conservador defensor da economia liberal? Sem problemas. Os jingles que você compôs são totalmente adaptados para qualquer fauna. Eles são versáteis, cabem como uma luva em qualquer bicho-de-pé que aparece sorridente nos cavaletes das ruas, atravancando o caminho dos pedestres, voando com o vento para o meio do asfalto. Não se preocupe com ideologias, afinal isso é coisa do passado.

Se você quiser ir mais longe, aprofundar para valer o programa do seu candidato e prepará-lo seriamente para a governança da cidade, diga para ele começar respondendo “sim” a todas as perguntas abaixo:

Pergunta: O senhor vai se preocupar com a segurança?

Resposta: Sim, segurança é nossa prioridade.

Pergunta: O senhor vai construir mais escolas e aumentar o salário dos professores em 1272,77%?

Resposta: Sim, afinal de contas educação é a nossa prioridade.

Pergunta: O senhor vai construir mais 78 mil leitos de hospital?

Resposta: Sim, quem me conhece sabe que a saúde sempre foi a minha prioridade.

Pergunta: Candidato, o assunto é moradia popular. É verdade que o senhor pretende construir 7 milhões de novas moradias?

Resposta: Sim, para as famílias carentes e para quem mais quiser vir tirar férias na nossa cidade. Não é à toa que habitação é minha prioridade.

Pergunta: E sobre a mobilidade urbana? Como melhorar o transporte coletivo?

Resposta: Sim, pretendo colocar um ônibus por habitante, inclusive para o motorista e para o cobrador. O direito de ir e vir é constitucional. Por isso, essa é minha prioridade.

Ao final, pega bem ele dizer que “assume o compromisso”.

Mas, atenção, a fim de prepará-lo para as complexidades da vida, cuidado com umas perguntas que mais parecem pegadinhas: para elas, instrua seu candidato a começar com “Não”. Por exemplo:

Pergunta: O senhor vai tolerar a corrupção?

Resposta: Não. A corrupção sempre foi a minha prioridade. Quer dizer, o combate à corrupção sempre foi a minha prioridade.

E assim por diante.

Se ele for raposa velha, diga que é experiente; se for um novato (mesmo que filho da raposa velha), diga que é renovação.

Nas fotos e programas de TV, faça-o aparecer de mangas arregaçadas (é sinal certo de que é trabalhador), filme tudo em alta definição (quem vai saber quanto custou essa brincadeira?), dê closes quando contar a história de vida do candidato, seus olhos umedecidos (se ele não conseguir chorar de verdade, colírio resolve). Coloque-o para andar de bicicleta nem que a produção do programa seja obrigada a colocar rodinhas para ele se equilibrar (no caso, instrua a fazer um plano que só apareça da cintura para cima). Ele pedalar em estúdio e depois jogar imagens do centro da cidade no fundo também pode resolver, mas cuide para não parecer artificial.

Diga que o candidato só faz subir nas pesquisas e daqui a pouco atingirá 126% do eleitorado. Isso permite a você dizer que ele é o candidato do povo, mesmo que o povo não dê dinheiro e ele seja financiado por empresários escondidos detrás daqueles óculos com nariz e bigode grudados.

Se o seu candidato estiver tentando se reeleger, instrua-o a fazer buracos nas ruas, tapando-os perto da eleição. Também coloque um ônibus ecológico movido a hidrogênio para desfilar pela cidade, escrevendo no letreiro “veículo em teste”. Pegue aquele bando de funcionário público (“afinal eles não trabalham mesmo”) e obrigue-os a trabalhar para seu candidato.

Se o seu candidato quiser tirar o atual mandatário do poder, contrate uns anônimos para pichar muros com frases de Fulano ladrão, o que vai conferir ao pichador o status de representante do clamor popular. É a multidão insatisfeita. Ou diga que ele cumpriu apenas 0,2% das promessas de campanha (não coloque 0%, pode parecer exagerado).

Se você nem sabe se seu candidato é situação ou oposição, não faz mal: há estratégias que funcionam para ambos: invente boatos que desqualifiquem os adversários, mesmo com críticas pouco ortodoxas (algo do tipo “o candidato fulano tem frieiras”) e estampe isso em um jornal apócrifo, que será distribuído lá onde o pessoal mal sabe ler (aquele mesmo lugar que já foi alvo de todas as promessas feitas no início destas recomendações).

Mais informações e dicas valiosas, é só entrar em contato. Cobro barato e faço amarrações para qualquer pretendente a cargo público.

Com esses e outros segredos, você pode preparar seu candidato para essa festa da democracia.

Abraço cordial, daqueles de político, mas sem tirar o relógio do pulso.

Cezar Tridapalli