Veja aqui os três capítulos anteriores.

A fuga de Loreto e Santo Ignácio Mini

Empanturrei-me de saltos e cascatas a ponto de turvar a vista numa mistura de tontura, própria de quando se intenta em acompanhar uma gota imaginária qualquer em meio a turbulência das corredeiras, com a saudade lacrimejante de um tempo que logo estaria por vir. Uma saudade do futuro… seria esse o tal do futuro do pretérito? De modo que, mesmo sem querer, flagrei-me descansando as retinas num remanso, numa prainha formada pelas águas do rio Paraná, entre um e outro conjunto de quedas. Enquanto o olhar flutuava inerte nessa última semana de julho e a alma, ao seu modo, se despedia de Sete Quedas, fazendo coro ao Quarup – o coro de tantos afogados – lembrava, nem sei por que, de um capítulo tão nobre quanto esquecido da história que outrora se desenrolara por essas bandas. Descontado um certo romanceado, algo mais ou menos assim:

O sino badalava pela última vez naquelas reduções às margens do Paranapanema. Aviso derradeiro de abandonar o local. Largar as casas, as roças, as oficinas, as escolas, os instrumentos musicais, as capelas… e correr para a beira grande rio. Sandálias sobre a areia, o Padre Montoya organizava a multidão, distribuía-os em grupos nas setecentas jangadas que às pressas foram construídas. Nem por isso, pouco resistentes. Tinham de aguentar dezenas de léguas os sobressaltos das águas encrespadas entre as pedras vermelhas, basálticas, mais duras do que angulosas.

Das missões de Santo Inácio Mini e de Nossa Senhora de Loreto, cerca de dez a quinze mil guaranis embarcaram para aquilo que viria a ser uma inimaginável epopeia. O esvaziamento do locus geográfico das reduções contrastava com a demora, com o esforço, com o desafio de poucos anos antes, na virada dos séculos XVI para o XVII em justamente… povoá-lo! Certamente não teria sido tarefa fácil convencer os indígenas a abandonar suas aldeias, muitas delas temporárias, erguidas dentro da lógica do seminomadismo, para se transferirem às reduções jesuíticas. Largar a autogestão de sua sociedade, a autonomia de seu cotidiano, sua conversa silenciosa com a floresta, segredos que só eles – a floresta e os guaranis – compartilhavam. Trocar tudo isso para seguir uma ordem subitamente estabelecida e, com isso, no interior de uma missão jesuítica, mergulhar fatalmente para o choque civilizatório.

Padre Antonio Montoya

Contudo, por certo, havia algo a ser considerado: a suposta liberdade nas selvas do sertão daquelas terras que ainda há pouco haviam passado ao mando espanhol, quisessem ou não, estava a um palmo da escravidão. Ocorre que tanto os espanhóis, como os portugueses, enviavam às matas do rio Paraná e de seus afluentes, seus destemidos – e impiedosos – preadores aventureiros para a captura dos indígenas. Enquanto os adelantados espanhóis requisitavam a mão de obra guarani principalmente para as nascentes vilas de Assunción, Ciudad Real del Guayrá e Villa Rica del Spiritu Sanctu, os lusitanos os queriam para os engenhos de cana da Capitania de São Vicente, na vila do mesmo nome, em Santos e no Rio de Janeiro. Assim, seguindo o curso do Ribeira, à montante e o Paranapanema, descendo-o desde a Serra do Paranapiacaba, aproximavam-se os grupos comandados pelos bandeirantes Raposo Tavares e Manoel Preto. Quase todos mestiços ou índios há pouco aprisionados, conhecedores como ninguém das trilhas da selva, esfarrapados, descalços e, bem ou mal, armados.

Contam-nos os historiadores, inclusive Romário Martins que não deixava escapar detalhe algum, a partir dos relatos dos padres Ruiz de Montoya, Dias Taño e Simão Maceta, que os bandeirantes paulistas foram surpreendidos nas diversas reduções. Quando chegavam a uma delas,geralmente encontravam-na abandonada e, especialmente, desabastecida. Enraivecidos, ateavam fogo em cada construção e partiam para a outra, distante algumas léguas, rio Tibagi, Piquiri ou Ivaí abaixo… E a cena se repetia. Em torno de 1631, a população missioneira remanescente de toda a Província do Guayrá basicamente se aglomerava nas duas últimas reduções, as missões de Loreto e Santo Inácio Menor, situadas no médio vale do Paranapanema. Diante da notícia da aproximação de Raposo Tavares a frente de um verdadeiro exército de três mil integrantes, o Padre Montoya decide pela fuga.

Assim, conta-se que setecentas jangadas e, sobre elas, talvez doze mil almas desceram o Paranapanema. O destino um tanto utópico, ou, como acabou provado, nem tanto: chegar ao vale do rio Uruguai, juntar-se às missões de Sete Povos, na mesopotâmia platina. Quantos dias e noites não foram atravessados e quantos não teriam ficado pelo caminho, às margens ou no leito do rio? É, evidentemente, incerto. Muitos optaram por tornar à vida na floresta, espalhando-se pelos perobais ou pelas matas de araucária e pelos faxinais de erva-mate, onde hoje estão as plantações de soja do sudoeste do Paraná, do Paraguai e de Santa Catarina.
Ainda assim, milhares chegaram. Recomeçam, desde então, sua história dramatizada nas reduções de São Miguel, Trinidad, San Ignacio e tantas outras…

Despertei da viagem de quase quatro séculos com algum cântico entoado do palco e da plateia. Parecia que estava distante, sozinho, imerso e, no entanto, ali estavam centenas de outros participantes do acampamento ecológico. Todos, de alguma forma, herdeiros dos guaranis, dos aldeados sob a benção de Montoya e também dos que foram avessos à obra de Inácio.

Chicho