Uma cozinha bem equipada com liquidificador, processador de alimentos, batedeira, fritadeira, chaleira elétrica, entre outras invenções do mundo moderno é o ambiente da casa em que a minha vó, uma senhora de quase setenta anos, mais gosta de passar o tempo. As máquinas, suas aliadas no preparo da comida simples e de sabor incomparável, dividem espaço com as toalhas bordadas, os pratos com detalhes na porcelana, além de panelas e travessas que, apesar de antigas, estão impecáveis como novas. Transformou a cozinha num ambiente em que a tecnologia divide espaço com a tradição e os costumes da família. Por exemplo, servir uma refeição sobre uma mesa sem toalha e guardanapos? Jamais!

Sempre comenta comigo das dificuldades que passava para fazer essa ou aquela receita quando não se tinha um liquidificador ou um freezer. Como cozinheira experiente, me conta que a culinária é como uma alquimia, em que experimentar ingredientes e técnicas novas são condições básicas para quem quer ter domínio sobre as receitas. Comenta também que errar faz parte do processo, pois nem sempre o resultado final fica como o planejado, como tudo na vida. No entanto, sempre me alerta: “Informe-se o máximo possível sobre aquilo que você gosta. É lendo, estudando, escutando e experimentando que a gente aprende a fazer direito e errar menos. Você já reparou que fora da cozinha tô sempre com uma revista nova de receitas e que conheço todos os programas de receitas da televisão? Ainda mais agora com a tv a cabo no quarto!”.

Quando ganha ou compra alguma novidade para a cozinha, como um triturador novo de alimentos, já sabe com clareza como que o utensílio vai lhe ajudar a melhorar a consistência do recheio crocante daquela torta, ou que vai conseguir preparar com mais facilidade um tempero para a salada. Ao mesmo tempo, não é porque se tem agora um triturador, por exemplo, que ela irá preparar uma refeição toda em torno do novo equipamento. Afinal, a vó sabe identificar os processos que considera mais trabalhosos, que lhe tomam mais tempo e que, talvez, um utensílio doméstico poderia lhe ajudar a tirar de letra.

Portanto, saber identificar melhorias para as atividades diárias a partir da tecnologia, acho que é um dos pontos principais que a minha vó me ensinou. Poder ter os pés no chão e dizer “não!” ao modo como a tecnologia tem nos sido empurrada goela abaixo, criando novas necessidades a todo momento e entulhando nossos dias com novas demandas a uma velocidade em que não estamos conseguindo mais acompanhar. Algo mais ou menos assim: não é porque você comprou um carro com freios de última geração que você irá dirigir de maneira imprudente no trânsito, porém você sabe que a tecnologia do freio está ali disponível, caso você julgue necessário utilizá-la. Parece um exemplo bobo, mas o motorista que se torna imprudente porque agora tem a tecnologia nas mãos não é diferente do homem moderno que conseguiu tornar-se refém dos aparatos tecnológicos, acreditando que conseguiria mais liberdade e qualidade de vida.

Esses exemplos podem ser muito bem aplicados à realidade escolar. Compreender que não é porque agora se pode ter uma lousa interativa ou um tablet em sala de aula, que precisamos, realmente, preparar aulas inteiras pensadas para esses equipamentos. Seria a mesma coisa se a minha vó só fizesse comida triturada depois da compra do triturador. Portanto, encerro citando o jornalista e educomunicador Alexandre Le Voci Sayad, autor do livro Idade Mídia: “Tecnologia sozinha não faz boa educação, mas é indispensável a ela, num projeto mais amplo.”


Vinícius Soares Pinto

É responsável pela Educação Digital e a Comunicação do Colégio Medianeira. É formado em Publicidade e Propaganda (UP), especialista em Comunicação, Cultura e Arte (PUCPR) e Cinema (TUIUTI). Leia outros artigos dele aqui.