“ O diabo não há! É o que eu digo, se for…Existe é homem humano. Travessia.”

Palavras derradeiras do Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa

Dia desses, de forma bastante despreocupada, me dirigi a um Shopping desta nossa capital paranaense, com uma tarefa deliciosa e muita específica: comprar um livro para dar de presente a um amigo muito especial.

Tal “passeio”, na realidade, era fruto de um problema que tive com uma grande livraria virtual. Explico: eu comprei o livro com mais de um mês de antecedência, pela internet e este não chegou. Foram dúzias de telefonemas e desculpas, mas o fato é que, do livro nem o cheiro.

Como o presente era pra um amigo especial, leitor voraz e maduro, “roseano” declarado, fui à Livraria com a pretensão de comprar o mesmo livro que havia encomendado. Tratava-se de um box chamado Os caminhos do Sertão, de João Guimarães Rosa. Cheguei à primeira grande livraria, confiante, me dirigi à vendedora, muito simpática, e pedi para que me indicasse a estante na qual estavam as obras de Guimarães Rosa. Ela me olhou, não sei se desconfiada, desconcertada ou com espanto e me perguntou:

- Como?

Eu repeti a minha pergunta educadamente e ela então me respondeu que tal estante não existia. Foi minha vez de dizer:

- Como? Onde ficam os livros DELE então?

Muito solícita a mocinha me respondeu que havia, “pronta entrega” apenas um livro, era uma edição do Sagarana. Apesar de ser um ótimo livro, não atendia às minhas necessidades e a esta altura eu já estava revoltada: um único livro do Guimarães Rosa? Absurdo! Não seria do meu feitio discutir estas questões com a vendedora, então agradeci, sai e me dirigi a outra (e última) livraria do Shopping. Não vou fazer perguntas idiotas aqui, do tipo, por que mais de 50 lojas de sapatos e apenas duas livrarias?

Cheguei à segunda livraria menos confiante e perguntei, cautelosa: “Você tem uma estante onde ficam as obras do Guimarães Rosa?” O vendedor me respondeu que não havia uma estante exclusiva, mas que suas obras estavam em meio aos demais autores da literatura brasileira. Senti um certo alívio e acompanhei o vendedor  à  “seção” indicada por ele. Ele me mostrou  Sagarana (novamente) e Manuelzão e Miguilim, as duas únicas obras que tinha do autor que eu procurava. Nenhum dos dois livros, com todo respeito, me serviam, então resolvi “fuçar” o acervo que estava disponível.

Foi muito fácil, pois toda a literatura brasileira estava resumida a  um pequeníssimo canto. A esta altura já estava desolada, mas tinha uma tarefa a fazer, encontrar, entre tão poucas opções, um livro especial. Sentei no chão da livraria e mexi nos livros, solitária. Fui salva pela estante ao lado, onde estavam os escritores portugueses e, neste caso, um acervo respeitável da obra de Fernando Pessoa. Colonialismo? Não sei, mas encontrei ali um livro que podia substituir “aquele”.

Depois de escolhido o livro, ao qual juntei outros dois, um do mesmo autor e a recente tradução de Ulisses, feita pelo curitibano Caetano Galindo, me dirigi ao caixa. Mas neste trajeto, fui assaltada por uma curiosidade: o que se vende numa LIVRARIA tão grande, se a literatura parece ocupar tão pouco? Então, num ímpeto, dei meia volta e percorri todo o espaço. Percebi que havia uma parede enorme, inteira, só para os esotéricos. Era do mesmo tamanho o espaço da autoajuda. Havia muito espaço também para os games e outros acessórios de informática.

Fui para o caixa achando que na guerra do mercado Homero, Cervantes, Camões, Machado de Assis, Garcia Marquez, Saramago, Veríssimo, Allende, Callado, Eco, Hatoum, Graciliano, Guimarães Rosa, Tezza, Dostoiévski, Kafka e tantos outros, juntos, perderam para fórmulas pobres e respostas prontas, que dirigem-se a anseios e perguntas que não formulamos.

Pode parecer que eu esteja fazendo drama à toa. Mas, para mim, livraria sem boa literatura é como escola sem aluno, teatro sem peça, cinema sem filme, que por não ser o que deveria, já não é mais. Não é nem ilusão.

PS: Depois desta experiência passei a indicar apenas algumas poucas livrarias da cidade aos meus queridos alunos, pois quero que se forem, quando forem, possam encontrar lá bons livros e autores.

Juliana Heleno