Depois de um bom tempo, voltei a ler um autor que sempre me interessou muito e é um dos responsáveis pelo meu grande interesse pelos livros: o gaúcho Érico Verissimo. Iniciei a leitura de Incidente em Antares, obra de um período mais maduro do escritor. Logo no começo, um pequeno trecho me chamou a atenção:

“Os livros escolares, cujo objetivo é ensinar-nos a história da nossa terra e do nosso povo, são em geral escritos num espírito maniqueísta, seguindo as clássicas antíteses – os bons e os maus, os heróis e os covardes, os santos e os bandidos.
Via de regra, não se empregam nesses compêndios as cores intermediárias, pois os seus autores parecem desconhecer a virtude dos matizes e o truísmo de que a História não pode ser escrita apenas em preto-e-branco”.

A copa e as olimpíadas no Brasil estão aí para confirmar isso. Daqui a uns cinquenta anos se falará nesses eventos que ocorreram no início do século e que geraram muitas expectativas na época. Quem será lembrado? Certamente não a massa de trabalhadores que, dia após dia, com muito esforço e baixos salários, tornaram o “sonho” possível. A História oficial não se lembrará dos nomes dos desapropriados que foram humilhados, nem dos que foram vítimas da higienização social que se faz nas cidades que receberão alguns jogos da copa e que preparam, cada uma à sua maneira, um corredor brilhante em que os estrangeiros andarão por alguns dias. Não, os fatos não serão contados, como nunca foram, por flagelados sociais, não haverá um João Ninguém que falará sobre as desapropriações, as bombas de gás, a polícia truculenta e a mídia mascarada brasileira. Haverá sim um conto do vigário que falará que os eventos foram belos, que se sambou, jogou futebol e riu, que houve algumas agitações sociais, porém nada que impedisse o bom andamento das coisas!
Talvez o meu humildade e desabafado mau presságio jamais aconteça e a história seja contada veridicamente, se é que existe alguma forma de isso acontecer. Mas, mesmo assim, se baseará em um fato que ocorreu e será passado, quando o que realmente conta é o momento imediato.

Para mostrar como é o momento dessas pessoas, que sequer existirão para a história, trago um documentário exibido na Rio+20 e que nos mostra um pouco o modo como o governantes e futuros “grandes” nomes dos livros escolares estão lidando com o suposto grande momento do nosso país.

Julio Cezar Peripolli