Fomento à leitura, projetos de literatura, formação de leitores, congressos sobre o assunto, nunca se falou tanto em ler. No entanto, a recente pesquisa sobre leitura divulgada pelo Instituto Pró-Livro, em abril – Retratos da Leitura no Brasil – revela, com suas 5.012 entrevistas, que o número de não leitores cresceu 5%. Ou seja, o equivalente a sete milhões e quatrocentos mil brasileiros. Como?, nos perguntamos.

Daqueles considerados leitores pela pesquisa – “aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses” – a maioria está em idade escolar e pertence a uma classe social mais favorecida. Quanto aos não leitores, as justificativas para não ler são várias, sendo a primeira a falta de tempo (50%), seguida pelo desinteresse ou não gostar de ler (14%).

Mas então aqueles que gostam de ler e o fazem são ociosos? Não enfrentam também a falta de tempo e o excesso de atividades do mundo contemporâneo? Arrisco-me a dizer que os 50% dos brasileiros apontados pela pesquisa como não leitores o são porque a sociedade contemporânea torce o nariz para tudo o que não tem uma utilidade imediata. A literatura, portanto, para servir para alguma coisa precisa ganhar um caráter funcional. É aí que entra a escola, que transforma a literatura em trampolim para ensinar os conteúdos do currículo. Nesse momento, a leitura deixa de ser fruição, deixa de ser a arte da palavra e ganha o status de “algo útil”. E então… o texto deixa de ser literário.

Buscando a utilidade para a literatura, a sociedade vem falhando na formação do gosto pela leitura. Sim, o gosto é formado, não nasce conosco ou aparece espontaneamente. Leitura se ensina, leitores experientes se formam. No entanto, a sociedade não investe realmente em políticas de leitura, as universidades não se preocupam em formar mediadores de leitores, as famílias não contam mais histórias porque o tempo é demasiadamente veloz e o que temos são bibliotecas vazias (75% dos entrevistados declararam NUNCA ir à biblioteca), livros empoeirados, muitas televisões ligadas e adultos avessos à literatura.

Não cabe somente à escola e à família fomentar a leitura. É preciso que a formação de leitores seja um compromisso político e social, é preciso que os cursos de licenciatura formem professores leitores, que se deixem seduzir pela literatura, que saibam o que fazer com os livros que abarrotam as estantes das bibliotecas escolares. É preciso humanizar-se pela arte da palavra.

A literatura? Será que serve para alguma coisa? Não sei ao certo se a literatura torna o mundo mais leve, mas, sem dúvida, o enche de significados e sentidos. As histórias nos ajudam a compreender a realidade, o outro e nós mesmos, afinal, no mundo ficcional vivemos outras realidades e nos reconhecemos nas personagens. Aprendemos a lidar melhor com nossos problemas, com o cotidiano, com nossos sentimentos. Tornamo-nos, enfim, perigosamente mais humanos.

* Mais informações sobre a pesquisa no site Prolivro.

Deisily de Quadros