Há dias venho pensando em qual enfoque dar a esse texto, já que as perdas, em geral, têm inúmeros. Dentre os vários nomináveis parece que um não se enquadra muito bem, o do espetáculo, mas, infelizmente, é esse o primeiro que nos abate nesse momento difícil. Já sabia que a relação com as funerárias e toda a burocracia imediatamente após a notícia do falecimento exigiam uma rapidez de decisão que não levavam em conta a fragilidade de quem está à frente de uma perda, assim como o comércio do amor ao ente querido. Me explico: nesses lugares parece que quanto mais você o ama – ou amava, embora nessa hora o passado ainda esteja no gerúndio – mais tudo ele mereça, mais, pasmem, itens no “buffet” do velório (chá de malva, requeijão cremoso, lenços umedecidos…); mais balões em formato de coração, pombas brancas e canções ao violino na hora do enterro; mais flores nobres; mais, mais, mais. Evidente que numa hora de menos, menos, menos você tenta preencher esse vazio de alguma maneira, até compreensível se tudo isso fosse um valor para mim e, especialmente para meu pai, mas e se não? Seria justo poder decidir colocar ou não um símbolo religioso (afinal, o estado é laico?) e pedestal para o livro de assinaturas, não seria?

Não quero aqui fazer um manifesto ou então uma carta de denúncia aos que me atenderam, acho que somos igualmente vítimas. Vítimas de uma espetacularização que tenta transformar todos os ritos de passagem ocidentais em festas homogêneas; ao final é como se desde o nascimento de tempos em tempos vivenciássemos uma grande festa de formatura, que começa com as mini-becas do primário, baile de debutante, casamento… e agora mestre de cerimônias no dia de sua morte?

Gostaria de ter escrito um texto belíssimo, a altura de quem me motivou, por enquanto ainda estou tentando achar a minha pedra do meio do caminho. De todo modo não quis reclinar a essa escrita por acreditar na atividade interlocutiva, na relação com o outro (você, que está lendo), isto é, não me motivei a escrever para cumprir o cronograma ou fazer do meio do caminho um mero acidente da expressão verbal, e sim fazer desse relato/desabafo um acontecimento verdadeiro, pois acredito que seja assim, e não no espetáculo, que se formem o sujeito e a experiência (e por que não a linguagem?).

O espanhol Jorge Larrosa em seu artigo “Experiência e paixão” afirma que fazer experiência é muito menos um ato e sim um padecimento, “que se apodera de nós, que nos tomba e nos transforma”. Logo, o sujeito da experiência é fundamentalmente aberto ao risco, é aquele (idealmente) com o poder de decisão dito lá em cima, que tomba diante da incompletude e da ausência. Para Larrosa, a morte está no limite da paixão como perspectiva de renascimento. E entre os limites espero que renascimento e transmissão de experiência vivida aliem-se, ao menos para mim, como meios do caminho, como possibilidades de continuidade da vida, experiências, paixões e textos.

Letícia Magalhães