“No meio do caminho tinha uma pedra.” Ou, “tinha uma pedra no meio do caminho”. Não importa a ordem das palavras, seja qual for o ponto de vista do observador, lá estará a pedra de Carlos Drummond, imóvel, dura e intransponível.

Parece ser a pedra, desde sempre, o imperativo da dificuldade, da frieza, da dor, do obstáculo.

“Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra!” Somos desafiados pelas palavras de Jesus Cristo, que ecoam pelos milênios de tradição cristã, a olhar para nossos erros antes de castigar os outros, para quem guardamos todas as pedras na mão, pois somos durões e implacáveis. Caia essa pedra em telhado de vidro e a casa estará descoberta.

Pedras de asteroides e de outros planetas adentram, de vez em quando, a superfície terrestre, incandescendo no céu, intrigando a humanidade, quebrando o telhado de vidro, semeando hipóteses sobre a vida no universo.  E a pedra se perde no tempo e no espaço.  E a mesma matéria pedra, impenetrável, na sua antiguidade milenar, insinua o rude, o primitivo. A pedra dura se lapida em água mole, até que fura, se deixando marcar irremediavelmente pela insistência. Antiga e bruta cede a pedra ao delírio humano, renitente como a água, deixando nas cavernas, para os homens do futuro, um secreto testamento de ideias ancestrais. Rude e imóvel, ainda se empresta ao sono eterno de restos de seres que, um dia, foram vivos, permitindo que olhos de outros tempos possam contemplar o passado.

A pedra tem algo de eterno. A pedra tem algo de interno, tem algo de silêncio e de palavra. Meteoritos, inscrições rupestres e fósseis à parte, a realidade se desenha pela pedra em metáforas implacáveis na poesia de João Cabral, pelas mãos em pedras de calos do sertanejo, “incapaz de não se expressar em pedra. / Daí porque o sertanejo fala pouco:/ as palavras de pedra ulceram a boca/ e no idioma pedra se fala doloroso;” […] (trecho do poema “O sertanejo falando”, de João Cabral de Melo Neto).

Na arte chamada bruta, como a pedra sem lapidação, se diz o rudimentar, se diz a alma em estado natural, retrato do que flutua escondido no interior do homem rude, como Moacir (tema do documentário “Moacir, arte bruta”, dirigido por Walter Carvalho), artista em estado natural, em estado de pedra, que se revela no rudimento do ser humano em estado bruto, despido do aparato estético e intelectual que lapida o status da criação humana.

Para Bez Batti, artista plástico que faz esculturas em pedras de milhões de anos, a pedra impõe tanta resistência, que dá vontade de desistir. Mas na insistência ela acaba cedendo e se deixa destruir para que se construa outra coisa. Inflexível? Não.

A pedra é sobrevivência em “O garoto”, de Charles Chaplin, que parte as vidraças para que o vagabundo Carlitos ofereça conserto aos moradores, chateados com o incidente. É o tropeço doloroso dos pés descalços, o caminho tortuoso, a impossibilidade da linha reta.

É impossível que a pedra não acrescente reflexão farta à vida humana, que endurece como pedra ao se anestesiar para não sentir o lado pedreira da vida. Tudo vai bem enquanto não se enxergam os problemas. Enquanto a sopa não for de pedra, enquanto não chover pedra, enquanto o caminho não apresentar desafios.

Mas a pedra continua no meio do caminho. Com anestesia não se sente a dor do tropeço, mas também não se percebe que houve o tropeço e nem mesmo a presença da pedra. Sem anestesia se percebe que há uma pedra e se pode parar para rever o caminho antes do tropeço.

Teria sido essa a pedra que Drummond viu no meio do caminho?

Martinha Vieira