O engenheiro André Rebouças

Imagem: Museu Histórico Nacional

Um dos engenheiros Rebouças, o André, certa ocasião idealizou aquilo que para a época (final do século XIX) era uma longa e fascinante epopeia: a travessia do Paraná, de Paranaguá à Guaíra. Do extremo leste ao extremo oeste, (ou, mais precisamente, para a meia dúzia de geógrafos perfeccionistas que eventualmente venham a ler, quase nos respectivos extremos). Do mar calmo da grande baía ao mundaréu das águas em polvorosa: as Sete Quedas, na garganta do canyon do Rio Paraná. Aliás, André Rebouças, amigo do Imperador Dom Pedro II, teria proposto a criação de um parque nacional na região das Sete Quedas, para protegê-las e, ao mesmo tempo, possibilitar que as várias gerações pudessem desfrutar das belezas ad infinitum. Isso em 1876! Nos anos 1800 a notícia corria, ou melhor, “se arrastava” na velocidade das carroças e por onde passavam os cabos dos telégrafos. Apenas quatro anos depois em que havia sido criado o primeiro parque nacional no mundo, o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos. Antes tivesse o imperador atendido ao devaneio de seu amigo. O primeiro parque nacional no Brasil foi criado quase oitenta anos depois, no Maciço do  Itatiaia, divisa entre Rio de Janeiro e Minas Gerais. Antes tivessem outros governantes declinado sua atenção à loucura do grande engenheiro. Apesar do mofado saudosismo, é preciso lembrar: hoje não temos mais porque proteger essa maravilha, nem mesmo usar o tempo para visitá-las. Não temos mais as Sete Quedas. “Sete Quedas por nós passaram e não soubemos, ah não soubemos  amá-las”, em versos,se despedira Drummond, aquele velho e bom mineiro.

            Num pretensioso resumo, a ideia de André Rebouças era dividir o longo trajeto entre o uso do transporte ferroviário e o fluvial. De Paranaguá à Curitiba pela linha férrea, aliás projetada por ele mesmo, entre outros, recém-construída, cravada que fora no solo granítico pela mão de obra escravizada e por trabalhadores livres, muitos deles imigrantes italianos. Esse é o primeiro trecho, cerca de um oitavo de toda a odisseia e … bem, de tudo que sonhara Rebouças, o único trajeto que  se pode pecorrer enquanto passageiro , cento e quarenta anos depois de seu vislumbre.

Maria Fumaça sobre o Viaduto Carvalho, na Ferrovia Curitiba – Paranaguá.

Imagem: Amantes da Ferrovia

 

O trecho seguinte, seria percorrido também de trem: da velha estação ferroviária da Praça Eufrásio Correia (hoje transformado em shopping center), em Curitiba, até Porto Amazonas ou São Mateus do Sul. Houve um tempo em que, de fato, havia passageiros viajando nos vagões da Maria Fumaça pelo alto e médio vales do Iguaçu, ou até mais adiante, em terras catarinenses.

Em Porto Amazonas, depois do Salto de Caiacanga, ou em São Mateus do Sul, o incansável viajante navegaria pelo rio grande dos guaranis (Y- guaçu)  até onde possível, driblando certamente muitos saltos dos rios em sobressaltos de rocha basáltica. Sabe lá quantos dias depois, da barcaça fumegante soaria a buzina avisando da sua chegada aos moradores da tríplice fronteira. Chegada à Foz do Iguaçu,  acima da cachoeira, é claro!

Aqui valem dois registros desenterrados da história paranaense: 1 – Os Saltos de Santa Maria, como foram religiosamente batizadas as Cataratas do Iguaçu, já eram conhecidas dos ditos “civilizados” desde o tempo em que o adelantado da coroa espanhola, Alvar Nuñes Cabeza de Vaca e sua expedição, quase se afogaram em suas estonteantes águas. Isso foi em meados do século XVI, nos anos quinhentistas. 2 – Quanto à navegação fluvial pelo Iguaçu, por algumas décadas, barcos a vapor ligavam as proximidades de Curitiba com o Porto União da Vitória – mais tarde politicamente dividida em duas cidades, uma paranaense, outra catarinense.  As forças federais comandadas pelo Coronel João Gualberto, por exemplo, embarcaram em vapores para lutar contra os seguidores do Monge João Maria, em um dos mais célebres episódios da Guerra do Contestado.

Selos homenageando o conquistador espanhol Cabeza de Vaca

Imagem: Foz em selos

Retornemos por ora à jornada rebouceana. Da Foz do Iguaçu, após maravilhar-se com as cataratas, o intrépido aventureiro seguiria o último trecho, novamente sacolejando sobre os trilhos. De Foz do Iguaçu

à Guaíra, o trem percorreria ao longo da margem esquerda do rio Paraná, subindo esse que é o grande rio para onde vertem quase todas as águas do estado do Paraná; o pai de todos eles, inclusive do Iguaçu, do Paranapanema, do Ivaí  e do Piquiri, para citar só os seus rebentos mais crescidinhos.

Enfim, Guaíra! A viagem pelo paraíso das águas chega à estação final. Merecido descanso, para se curtir à sombra de uma peroba, o incessante trovejar das águas do Paraná. Essa vibração das águas transformada em ondas sonoras que invadem o vasto espaço do arquipélago da Ilha Grande, repercutindo na pedra e no limo das ruínas de Ciudad Real, quem sabe, tangendo de leve os sinos marcados com o selo jesuíta suspenso no que sobrou de alguma torre de igreja missioneira.

 

Imagem: Usina de Soluções

 

P.S. Dom Pedro II, pelo visto não deu a merecida atenção ao projeto do engenheiro Rebouças, contudo, séculos depois, alguém mexeu em seus alfarrábios adaptou  seu sonho romântico, num milionário cruzeiro sobre terras. Explico: há no mercado uma viagem turística de luxo ao longo de vários dias, revezando o transporte ferroviário, o rodoviário e ainda o áereo (bem, voar era coisa que nem Rebouças havia sonhado), partindo do Rio de Janeiro, passando por Curitiba e a Serra do Mar; em seguida, pelos Campos Gerais e encerrando em Foz do Iguaçu, consagrado patrimônio da humanidade.  Penso apenas, a título de comparação que o abolicionista engenheiro imaginara uma viagem um tanto mais acessível… refiro-me financeiramente, é bom que se explique.