Sempre me chamam a atenção os textos postados no blog do Medianeira, principalmente por serem textos “de experiência”, mais que de “experimento”. E aqui temos um grande hiato, divisor de águas entre dois eixos de compreensão/sentido e método: a experiência, grosso modo, é aquilo que, de um modo ou de outro, nos toca, nos chama atenção, enfim, volta os nossos olhos para determinada situação, pessoa, objeto, para lá permanecermos e de lá sairmos, de certa forma, transfigurados

O experimento, entendido, neste contexto, como experimentação científica, exige que inquiramos algo, separemos, destrinchemos, em outras palavras, analisemos as suas partes para tirarmos algumas conclusões. Se na experiência nos é oportunizado um momento de síntese, de compreensão da totalidade de uma realidade, de um fato das nossas vidas, de um evento…No experimento operamos com a análise e, só depois, com uma síntese. Se na primeira opera a lógica da totalidade da vida; na segunda, impera a lógica de apenas uma das suas dimensões, importante, fundamental, mas não a única: a lógica da razão.

Esse tema me veio à mente por dois motivos bem díspares, até ilógicos. Como moro próximo da linha do trem, ele está sempre comigo e, nas suas idas e vindas, permaneço eu. O seu som, desde que em Curitiba cheguei, me acompanha. Na verdade, há séculos permanecemos de viagem em um trem e, para recuperar a sua origem, necessitaríamos de uma arqueologia. O seu mecanismo, funcionamento, seu sistema motor, a sua estrutura… O como ele corta cidades, paisagens, localidades…como ele transporta, importa, suporta…o combustível que aciona a estrutura mecânica, transformando as formas da energia, fazendo que com isso, passemos do estático, do não ser pleno, para o vir a ser e a sua fluidez.

De outro lado, o trem rompe com a sua forma fixa, conhecida, mecânica, para se transformar em evento: da palavra, das sensações, dos sentimentos. Esse trem, rico de metáforas, nos permite viajar nos seus vagões e encontrar o sentido de nós mesmos e da vida: o “trem bruto”, ou melhor, o fato trem e, ao lado, o trem sonho, o trem viagem, com trilhos bem menos rígidos que aqueles do nosso primeiro exemplo.

A literatura e a música, aqui, nos permitiu algumas experiências maravilhosas, mesmo antes do encontro com o fato trem. Cedo, ouvíamos o Trem das Onze, com Adoniran; O barulho do Trem, com Milton; Trem das Sete, com Raul…Não conhecíamos e, talvez, nunca conheceremos os fatos “Milton, Adoniran, Raul”, mas, por outras vias do saber, eles se fazem presentes; tornaram-se tempos eixos de compreensão da vida e do passado sempre presente. Longe de nós pensarmos que existem “formas de conhecimento” mais úteis que outras. Até por que, a utilidade se tornou algo tão inútil quanto o próprio conceito. Basta, neste espaço, refletirmos a amplitude da palavra e as possibilidades que se descortinam aos nossos olhos quando nos permitimos ultrapassar os fatos para permanecermos por detrás ou para além dos dados. Aqui, despeço-me com outro trem, Trem de Ferro, do Bandeira.

Trem de Ferro

Café com pão
Café com pão
Café com pão

 Virge Maria que foi isso maquinista?

 Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)

Oô…
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô…
(café com pão é muito bom)

Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô…
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô…
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô…

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente…
(trem de ferro, trem de ferro)

Mayco Martins