Se eu soubesse que teria apenas mais um mês de vida, pensaria certamente nas coisas que deveria ter feito ou ainda nas que deixei de fazer. Se meu corpo permitisse, é claro, uma vez que ele teria sido castigado pelos próprios hábitos nocivos. Esse tipo de pensamento mórbido não vem naturalmente à nossa cabeça, a não ser quando algum elemento externo, num súbito, nos faz saltar aos olhos a ameaça.

Numa dessas noites, ao assistir o seriado Dexter, esse súbito me ocorreu. Acontece que há uma personagem, na terceira temporada, que está com seus dias contados. Seu nome é Camilla e sofre de câncer de pulmão, decorrente de um vício mortal: o cigarro. Como último desejo, ela gostaria de comer a melhor torta de limão da cidade. Era só o que queria.

Aí que entra o meu devaneio: nas condições dela, o que eu gostaria de fazer nestes últimos dias? Viajar, estaria fora de questão. Algum esporte radical, tipo pular de bungee jump, também. Talvez jogar video game. Mas naquele momento em que eu começava a pensar em tudo isso, uma coisa parecia óbvia: deveria ler toda a literatura que pudesse.

Acho que o primeiro livro da lista seria Os irmãos Karamazov. É longo, né, mas é Dostoievski. Kafka também, se bem que eu ia apenas terminar O castelo. Se tivesse maturidade intelectual para ler Ulisses, do James Joyce, certamente aconteceria. Em busca do tempo perdido, com o perdão do trocadilho involuntário, seria uma boa pedida. A montanha mágica, de Thomas Mann. Ler mais o Ian McEwan e o Philip Roth. Stendhal também. O Graciliano Ramos, Memórias do Cárcere. Todo o Machado de Assis. O Camus. Zola. Algum Hemingway. Saramago, obrigatório. Garcia Marques. A ilíada e a Odisséia. Camões. Reler a trilogia tebana. O Dalton. Tchekov.

Pensando bem, um mês seria pouco tempo.

- Doutor, a situação é mesmo irreversível?, eu perguntaria. Não tem mais nada que você possa fazer? Não sei, só mais um meio ano, pra terminar com essa listinha?

Desperto do devaneio num súbito com um grito no ouvido, minha namorada arranca o cigarro da minha mão e diz pra parar de escrever essa besteira e finalmente ler um livro.

Diego Zerwes

É publicitário (UP) e Especialista em Literatura Brasileira e História Nacional (UTFPR). Trabalha na Comunicação do Colégio Medianeira. É tradutor (diletante) da vasta obra musical de Leonard Cohen, publicada periodicamente no Traduzindo Leonard Cohen.
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