Maxixe Machine, uma das bandas curitibanas

Ao dizer aqui, me refiro ao Paraná e, de forma mais precisa, a Curitiba. Mas para explicar o milagre, precisaremos voltar um pouquinho no tempo. Nas décadas de 1970 e 1980, milhões de brasileiros fizeram de inúmeras novelas globais as recordistas de audiência, assim, também suas trilhas sonoras ajudaram a encher os bolsos do Sr. Roberto Marinho via Gravadora Som Livre, das Organizações Globo, que nessa época contavam com um time de músicos altamente gabaritados, contratados para compor e arranjar as trilhas sonoras globais. Mas o grande público dessas novelas e programas sequer veio a saber que grande parte dos sofisticados arranjos de suas trilhas sonoras saíam da mente genial do paranaense Waltel Branco, que nesse time de músicos era uma das figuras centrais. Também muitos ouvintes de discos históricos da MPB, como “Chega de saudade” (João Gilberto) e tantos outros, talvez não saibam que na produção musical ou nos arranjos desses discos, lá estava Waltel, mais uma vez, fazendo a qualidade da música brasileira alcançar as alturas. Em 1980, é a vez do compositor Arrigo Barnabé, de Londrina (PR), fazer história na MPB ao ser reconhecido na cena paulistana, com o disco independente “Clara Crocodilo”, como um dos maiores fenômenos de inovação na música brasileira após a Tropicália. Arrigo, que trazia o elemento clássico para contar histórias cruas da cena urbana, passou a fazer parte da Vanguarda Paulista junto com Itamar Assumpção, Grupo Rumo, Premeditando o Breque e Língua de Trapo. Nessa época era muito difícil para um artista local permanecer no Paraná, mesmo que fosse na capital, se quisesse tentar algum reconhecimento no cenário musical brasileiro, ou até mesmo entre os próprios paranaenses. É fácil, mas não aceitável, explicar esse fato com razões históricas: Rio de Janeiro e São Paulo são cidades muito mais antigas do que Curitiba, e o Rio de Janeiro já foi capital do país, concentrando todas as inovações e privilégios característicos do tipo de progresso almejado pela corte portuguesa e depois pelas elites que por ali foram se estabelecendo. A começar pela imprensa e mais tarde o estabelecimento de emissoras de rádio e televisão nesse eixo Rio-São Paulo, formando as grandes redes de comunicação do país. Isso tudo sempre imprimiu um status a essas capitais, sobretudo por causa do monopólio de divulgação de uma cultura local em nível nacional, o que produziu, no imaginário popular de outras regiões do país, a tomada da cultura paulista ou carioca como protótipo da cultura nacional. Essa mentalidade dificultou, em locais como o Paraná (que é tema central dessa análise), o reconhecimento dos artistas locais. Para muitos curitibanos, por exemplo, era preciso saber do sucesso de um artista local em São Paulo ou no Rio de Janeiro, para reconhecer nele algum valor. Algo parecido se deu em meados da década de 1980, com a banda curitibana Blindagem, quando passou a figurar no repertório de algumas rádios paulistanas com transmissão em Curitiba. Duas faixas do LP “Cara e Coroa” entraram nas paradas de sucesso em frequência modulada. Esse episódio alavancou a venda do disco, apresentando, a muitos curitibanos que ainda desconheciam a existência da banda, o mais puro rock paranaense, impregnado de poesia e irreverência, e com um estilo todo seu de fazer rock. Outra banda a resistir bravamente a esse tipo de polarização cultural, nos anos 80/90, foi a banda Beijo AA Força, que, optando também pela permanência em Curitiba, consegue dar passos muito definidos para a elaboração de uma nova consciência sobre a música local, que vai se fortalecer ainda mais com o surgimento do Grupo Fato, inaugurando um novo olhar para a música local, indo além do rock e mesclando-o à sutileza própria da melhor MPB, com traços muito significativos da tradição local, como alguns toques do fandango. Ainda na década de 1990, Curitiba vivencia mais alguns capítulos interessantes na história das bandas locais com “Relespública”, que conquista espaço na cena nacional chegando a participar do Rock in Rio. Também Carlos Careqa, no início da década de 1990, se aproximou da Vanguarda Paulista no estilo e na escolha de Sampa como campo de batalha pelo reconhecimento na MPB. Careqa é catarinense de nascimento e viveu a infância e parte de sua juventude no Paraná, mas foi se fixando em São Paulo que conseguiu chegar às rádios e se tornar reconhecido na cena cultural. Infelizmente, nem o Paraná, nem a sua capital foram muito promissores para os seus músicos e compositores até então. A necessidade de reconhecimento fora do estado afastou muitos deles, que também buscavam um cenário mais diverso e, nesse ponto, São Paulo é um excelente laboratório. Porém, alguns corajosos resolveram fazer de Curitiba o seu laboratório e o seu palco, como o Grupo Fato, Beijo AA Força, Blindagem , Hardy Guedes, As Nymphas, e outras bandas e solistas que foram surgindo e oferecendo ao povo curitibano a diversidade ideal, não pela lógica de mercado que busca oferecer um self service musical para agradar a todos os gostos, mas para marcar a autenticidade e a capacidade inventiva dos nossos artistas, que surpreendem a cada novo trabalho, comprovando que é possível romper estereótipos, construindo uma identidade musical justamente pela expressão da diversidade. Samba, choro, rock, ritmos tradicionais, resgate de ritmos populares, baladas, modas de viola fazem parte do repertório autoral e das interpretações dos tantos compositores, instrumentistas, bandas e intérpretes locais, como Trio Quintina, Rogéria Holtz, João Egashira e sua Orquestra à Base de Corda, Maxixe Machine, Terra Sonora, Viola Quebrada, Rosy Greca, Wandula, Mundaréu, Grafite, Black Maria, Grupo Molungo, Homem Canibal e tantos outros. São tantos que com certeza me esqueci de vários, ou talvez ainda desconheça alguns. Com isso não afirmo, num intuito bairrista, que Curitiba conta hoje com os melhores profissionais de todo o Brasil na área da música. Apenas afirmo que foi desbravado o caminho e que aqui se faz tanta e tão diversa e boa música como em qualquer outra região do país e do mundo. Como hoje a internet passa a ser uma das grandes mídias, se rompeu um tanto o monopólio cultural das grandes redes de TV, o que tem facilitado a divulgação de qualquer estilo ou tendência, alavancando a abertura à diversidade, e no reconhecimento da diversidade a cultura local começa a ter vez no próprio local. O povo curitibano parece estar hoje mais atento aos seus artistas, que por sua vez se multiplicam em progressão geométrica, ousando estilos e experimentações diferenciadas, abrindo um leque fabuloso no cenário musical local e na Música Popular Brasileira. Tudo o que precisamos é conhecê-los e divulgá-los cada vez mais. O resultado? Talvez um encontro surpreendente com que há de melhor em ser curitibano, de nascimento ou de coração. Talvez a descoberta de que o artista é um ser de carne e osso, como qualquer um de nós, mas que desenvolve a capacidade da provocação, e o resultado da provocação não se prevê, apenas se experimenta. Esse é o desafio, esse é o milagre!

Martinha Vieira