As terras e as águas de Guayrá

Que madrugadas frias aquelas do Quarup Sete Quedas em Guaíra. Sensação de frio acentuada nos arrepiso da pele avermelhada e ardida do sol forte da tarde. Esses dias azulados que antecedem o inverno curitibano refrescam literalmente as lembranças daqueles dias em que plantei minha ecológica indignação e, paradoxalmente a semente de esperança na terra vermelha, mais do que roxa, de Guaíra.

Procurei em vão pelas trilhas e matas das margens do ruidoso rio Paraná, no Parque Nacional das Sete Quedas, os vestígios da velha vila espanhola que quatrocentos anos antes se erguera por ali. Não tinha pista alguma, menos ainda instrumental de arqueólogo para encontrar indícios da ocupação colonial hispânica nessas terras que, por sinal, eram dos guaranis e que passaram a ser dos espanhóis, por conta de uma canetada (ou seria na época uma “penada mergulhada no tinteiro”) formalmente rabiscada num lugarejo chamado de Tordesilhas.

Dias depois, de volta à Curitiba, no oitavo ou nono andar da reitoria da Federal do Paraná, estava assistindo a uma verdadeiramente deliciosa aula do Professor Igor Chmyz. Relatava-nos, o eminente mestre e arqueólogo, notícias frescas (década e meia antes da internet) diretamente vindas do front, digo das escavações nos sítios arqueológicos situados entre Guaíra e Foz do Iguaçu. O professor Igor e sua equipe corriam contra o tempo no resgate de histórias milenares das civilizações, cujo legado em breve seria afogado junto com as Sete Quedas sob a represa de Itaipu.

De modo que eu já não estava fisicamente lá em Guaíra, mas pela narrativa do professor, confesso que viajei e transpus o meio milhar de quilômetros no espaço e o meio milênio do tempo, para despertar spbre as alamedas de Ciudad Real del Guayrá. A vila concentrou possivelmente alguns milhares de pessoas, em torno de suas quadras urbanisticamente organizadas num característico traçado ibérico sob forte influência moura, como bem cabia para o final dos anos mil e quinhentos. (O Sirocco soprou bem mais do que areia do Saara para o outro lado do Mediterrâneo). Cada quadra era composta por casas de pedra e terra batida, umas encostadas às outras e com as portas diante da calçada em frente à ruela. Os fundos das casas davam todas a um quintal comum, um pátio central, houvesse mais tempo, quem sabe haveriam fontes e jardins engalanados. Planejaram até mesmo um refresco para o calor escaldante do verão daquelas terras ressequidas pelo sol do Trópico de Capricórnio. Sobre as calçadas, um prolongamento da fachada das casas servia de marquise, de cobertura para os que caminhavam à margem daquelas estreitas sendas: centenas de indígenas escravizados, os bandeirantes, encomenderos e adelantados que perseguiam os índios, ou que administravam tanto a vila como os seus dividendos, os padres jesuítas, cujas missões se situavam a alguns quilômetros da vila, em meio à Província do Guairá, os degredados e deserdados da pátria espanhola, os aventureiros, os de sangue azul que almejavam acumular mais riquezas enfeitiçados pelo sonho de Eldorado…

Depois de escapar da morte certa nas cataratas do Iguaçu, o destemido explorador Alvar Nuñez Cabeza de Vaca, retomou o Caminho do Peabiru e quem sabe descansou sob as sombras de alguma peroba num dos quintais de Ciudad Real, para depois seguir caminho para Assunción, Potosí e onde mais o seu nariz apontasse. Cabeza de Vaca merece um post a parte, mas deixemos para outra oportunidade, se o querido Professor Olavo Soares me conceder essa licença de tratar de um tema em que ninguém como ele poderia discorrer com mais maestria.

Outra ilustre personalidade que passou pela histórica e desaparecida Ciudad Real del Guayrá é o Padre Ruiz de Montoya. Esse grande jesuíta conduziu mais de dez mil guaranis numa fuga espetacular do ataque eminente dos bandeirantes paulistas. Os religiosos das batinas negras e os guaranis de corpos pintados em urucum abandonaram as duas maiores reduções das margens do rio Paranapanema: a Missão de Santo Inácio Mini e a Missão de Nossa Senhora de Loreto e se lançaram nas águas do rio em setecentas jangadas, segundo o relato do padre Montoya. Dias depois, já se encontravam os fugitivos no rio Paraná, diante de Ciudad Real. Era preciso desviá-la, para não cair nas mãos dos espanhóis. Depois de escapar dos bandeirantes portugueses que os queriam levar aos engenhos de cana de São Vicente e outras vilas costeiras, não haveria vantagem alguma em cair em mãos espanholas Os que sobreviveram, acrescentaram-se às Missões de Sete Povos, às margens do rio Uruguai, nos atuais territórios do Rio Grande do Sul, de Misiones na Argentina e no sul do Paraguai.

Os bandeirantes não encontraram viva alma nas reduções do Paranapanema. Sequiosos de seus objetivos, seguiram em frente. Não demorou muito para que atacassem Ciudad Real del Guayrá e Vila Rica del Spirictu Santu, as vilas espanholas, saqueando seus moradores, raptando seus escravos. As casas foram incendiadas, as vilas abandonadas. Por centenas de anos a densa floresta cresceu sobre as ruínas, a poeira e memória de Guayrá. E aqui estamos nós, remexendo nessa poeira toda…

Francisco Rehme, o Chicho.