Há uns 4 meses eu fui assaltado. Foi uma cena corriqueira e muito comum: caminhávamos, eu e meu irmão, em direção à rodoferroviária de Curitiba, quando, subitamente, nos abordou um rapaz de mais ou menos uns 30 anos, negro, de moletom com capuz, calças largas…Enfim, vestido com o “estereótipo” do trombadinha, do bandido, do vagabundo, do inútil, do marginal…da escória…A palavra “estereótipo”, aqui, tem um lugar central, pois nos coloca na fronteira de uma reflexão um tanto maior: quem, hoje, é tido por marginal?

Como é engraçado pensar nos noticiários variados lidos pela sociedade como um todo. Nos crimes estampados na primeira página há grandes distinções: roubo, estelionato, furto, peculato, nepotismo, tráfico de drogas…Podemos afirmar uma gradação desses crimes, chegando à afirmação de uma “escola” de bandidos, composta por um currículo variado e diversificado, iniciando pelo crime da “mentirinha pra mamãe” e, com muito trabalho, “sangue e suor”, chegar-se-ia à grande meta da corrupção?

Assim, um “bom aluno”, dependendo da sorte e das oportunidades, talvez aos 25 anos já teria um cargo importante, de preferência cargo federal, onde pudesse pôr em prática todo o conhecimento da maracutaia apreendida nos anos escolares. Quais seriam as disciplinas: Princípios básicos da mentira I, II, III e IV; Introdução ao roubo; Introdução ao furto;  Princípios da Retórica I, II, III, IV; Empreendedorismo nos “negócios”; Introdução à venda de palavras vazias/fúteis…Com uma boa equipe de profissionais – é claro que, aqui, o requisito mínimo de formação deve ser a “experiência” no NEGÓCIO, de modo que, os “fichas limpas”, não têm voz e nem vez – poderia se formar uma classe de bons funcionários, talvez uma cidade, sendo um tanto ufanista, construir-se-ia um país de pós-graduados na sacanagem!!

Brincadeiras ao lado – e me desculpem, companheiros leitores, a digressão – o fato de  esse que vos escreve ter sido assaltado só nos serve, neste momento, para uma reflexão maior sobre os nossos estereótipos, sobre as nossas percepções de mundo, de sociedade, de cultura, de valores morais e, neste contexto, penso nas milhares de distinções, muitas vezes um tanto maniqueístas, entre o bom e mal, apto e não apto, agradável e não agradável, educativo e não educativo…Mais ainda, podemos parar um pouco a leitura desse texto e nos perguntarmos: no sistema econômico e social em que vivemos e que depende de nós para a sua manutenção, que perfil de pessoas, de fato, “valem a pena”? Não sei se exagero um pouco, mas a resposta à nossa pergunta soa mais ou menos assim: “Importa aqueles que se esforçam para a construção de um mundo competitivo, voraz, na lógica acirrada do mercado, pautado pela qualidade total e, de preferência, pela MERITOCRÁCIA maldita que não olha o outro como Outro, mas como um objeto.

Objeto, nessa lógica, somos todos nós: desde aquele que explora, pois se torna objeto nas mãos de si mesmo e do seu pequeno-sonho-burguês de felicidade – leia-se GOZO – eterna e do êxito total diante do mundo de aparências; até o miserável, habitante de qualquer esquina da nossa Curitiba Ideal – essa realidade não é privilégio nosso, mas será que não estamos entre o os melhores em mascará-la??

Objetos, neste contexto, tornamo-nos quando, na correria maluca das grandes cidades, não nos damos conta que entre roubar um celular e fraudar os cofres públicos, a principio, não há ação mais ou menos moral. Ambas são crimes! Mais estranho ainda é que, nas nossas mentalidades urbanas, o crime do “muleque” que rouba um celular e o troca na primeira boca-de-fumo é muito mais ressaltado, cuidado, lido, comentado…Enquanto aquele que nos assalta diariamente – veladamente – , de modo tranquilo e sereno, passa ileso pelos nossos olhos: é admirado, idolatrado e, por que não, VOTADO nas primeiras eleições possíveis!

Durante alguns anos eu fui integrante da Pastoral Carcerária de João Pessoa-PB e, por pouco tempo, de Belo Horizonte-MG. Nas minhas visitas aos Presídios – de Segurança Máxima, Internato, Semi-aberto, Feminino, Especial (cárcere para apenados que sofriam algum tipo de doença) – nunca me deparei com os “grandes criminosos” da sociedade e admito que isso possa ser fruto do meu azar. As pessoas que eu encontrava por lá eram, na grande maioria e na nossa primeira conversa, “inocentes”. Quando firmávamos uma amizade maior e os laços de confiança se estabeleciam entre os interlocutores, a verdade se desvelava de um modo que me deixava assustado, desconcertado. Principalmente porque, grande parte daquelas pessoas, de um modo ou de outro, sempre foram “marginais”, mesmo antes de nascer!! Marginais porque nunca tiveram uma escola de qualidade; porque, da vida, só conheceram o sofrimento e a dor das inúmeras perdas diárias, inclusive da perda de humanidade e de não ser visto como “um igual entre os iguais”; porque, nas “memórias” de alguns deles, eu conseguia sentir o cheiro não apenas do sangue derramado por eles, como também do sangue deles mesmos…

Que, ao final desse texto, o amigo leitor não pense que eu faço uma apologia ao crime ou, que eu não reconheço no “culpado” a sua culpa. Na verdade, como radicalmente livres, o ser humano deve ter responsabilidades pelos seus atos. Em contrapartida, como podemos, em sociedade, pensar que as ações humanas e os seus efeitos estão totalmente desvinculadas entre si? Se vivemos em comunidade, as nossas ações se entrecruzam, são interdependentes e criam cultura. O problema começa a partir do momento que, por algumas imparcialidades, não mais se consegue uma leitura com justiça e equidade (e esse é o nosso grande desafio). Neste momento, estereótipos se cristalizam em verdades e as “verdades” começam a exigir prioridade! Pensando na situação dos marginalizados citados no nosso texto, caso sigamos essa lógica perversa vendida por ai, eles devem ser eliminados, afastados – quem sabe até mortos -, PRESOS e lançados à distância dos “cidadãos de bem”. Na verdade, a criminalização da vida e das ações humanas, hoje, revela uma sociedade pautada pela lógica esquizofrênica do medo e de uma eugenia onde só cabe o MAIS FORTE. As UPPS – cada dia mais fortes –  e a militarização do Estado brasileiro estão aí para confirmar algumas coisas!

Mayco Delavy