Como todos os que acompanham o blog, tenho um gosto especial pela literatura. Confesso que a minha relação com ela não foi das mais precoces, pois comecei a ler as grandes obras literárias apenas na faculdade. É claro, tive aquele primeiro contato obrigatório, que muitas vezes é traumático, que todo aluno de ensino médio deve ter para tentar o vestibular. Machado de Assis? Não ouso dizer os adjetivos utilizados para designar o sujeito na época em que fui obrigado a lê-lo. Dentre todos aqueles que li para as provas, talvez o grande nome que chamou a minha atenção na época foi Jorge Amado com Terras do sem fim. Ainda hoje sou um admirador da sua sensibilidade e fluidez na hora de escrever.

Enfim, entrei na faculdade e descobri que eu teria que ler muito. Fiz publicidade e propaganda, meio a contragosto. Odiava as matérias que realmente poderiam ser ditas pertencentes ao mercado publicitário, porém as teóricas me atraiam profundamente, me encantavam de uma maneira tal que nelas eu não via mais obrigação alguma, lia por gosto. Tive contato com professores excelentes (né, Cezar?) que me indicaram muitos livros, principalmente de literatura, comecei a frequentar a biblioteca da universidade (!). O prazer da descoberta era indescritível. Minha nossa aquilo era literatura e era a primeira vez que eu tinha um contato tão direto, tão meu. Enfim, a faculdade foi passando, li mais e mais, mas em determinado momento alguma coisa começou a mudar dentro de mim. Lembro perfeitamente de um professor de filosofia que sempre repetia aos alunos “gente, aprender dói, dói muito”. E dói mesmo. Por isso hoje vou fazer o papel de advogado do diabo, tenho até medo de dizer isso para tanta gente viciada em livros, mas vamos lá. Todos sempre utilizaram o verbo “ler” no imperativo para que eu pegasse gosto pela coisa, me disseram que ler nos torna pessoas melhores e todas aquelas coisas que as pessoas adultas que não leem falam para os mais jovem que também não leem. Porém, ninguém falou da dor que o literário traz, da angústia, da descoberta do vazio humano, da desconstrução do mundo “perfeito” que ela nos obriga a fazer. Claro, essa mudança é belíssima, é ela quem não nos deixa simplificar as

coisas, não limitar uma ação humana entre certa ou errada, respeitar a diferença. Ler nos faz pensar que o mundo, esse mundo de aparências, não basta mais, nos tornamos estranhos a ele, e muitas vezes a nós mesmos. Ninguém nos avisa que, depois de ler, estamos estragados para aquelas festas com músicas ruins e bebidas a rodo onde o importante é “ficar muito louco” para contar uma história etílica aos amigos na segunda-feira. Também não existe um alerta na capa de um bom livro dizendo “Cuidado, esse material fará você odiar as novelas e os filmes que passam depois dela” ou então “Atenção, ao ler esse livro você respeitará as pessoas, mesmo que elas não tenham muito respeito pela sua individualidade”. Não. Nada disso é dito, nem mesmo que por baixo de nossas aparências existe uma outra pessoa, estranha a nós mesmos, que virá a tona conforme vamos lendo e aprendendo um pouco mais sobre os vícios e erros humanos. Ao fim de tudo, depois de milhares de revoluções internas, guerras civis da alma, descobrimos que estamos viciados, viciados em causar dores a nós mesmos e que na verdade a literatura ensina muito pouco, muito pouco mesmo, mas que no fim das contas o que aprendemos com ela  é tão insubstituível para viver como respirar. Por fim, se eu tivesse que incentivar alguém a ler, não iria dizer a ela que a literatura ensina muitas coisas ou que ela só iria encontrar coisas bonitas e rimas belas ao ler. Diria “prepara-se para sofrer”. Se depois disso, ainda houvesse alguma vontade de abrir um livro, poderia dizer que a literatura lhe cairia bem e invocaria o italiano Ítalo Calvino para reforçar a defesa de que ler é importante porque:

As coisas que a literatura pode buscar e ensinar são poucas, mas insubstituíveis: a maneira de olhar o próximo e a si próprios, de relacionar fatos pessoais e fatos gerais, de atribuir valor a pequenas coisas ou a grandes, de considerar os próprios limites e vícios e os dos outros, de encontrar as proporções da vida e o lugar do amor nela, e sua força e seu ritmo, e o lugar da morte, o modo de pensar ou de não pensar nela; a literatura pode ensinar a dureza, a piedade, a tristeza, a ironia, o humor e muitas outras coisas assim necessárias e difíceis. O resto, que se vá aprender em algum outro lugar, da ciência, da história e da vida, como nós todos temos de ir aprender continuadamente.

(CALVINO, Ítalo. O miolo do leão In; Assunto encerrado – Discursos sobre literatura e sociedade. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 21)